Cineastas fazem proposta para Cimeira
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sábado, 26 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
Rio, 27 (AE) - Com a experiência de quem participa há mais de 30 anos de encontros para discutir a produção e distribuição de filmes no Brasil e na América Latina, o produtor Luiz Carlos Barreto destacou a novidade do documento final do seminário Impasses do Cinema, realizado na sexta-feira e no sábado no Rio. "Pela primeira vez não estamos estendendo o pires para pedir caridade, mas estamos falando de comercialização, exigindo igualdade de condições para os nossos produtos."
O seminário reuniu durante dois dias cerca de 50 produtores e diretores do Brasil, da América Latina e da Europa. Alguns dos principais convidados não puderam vir: Robert Redford
Wim Wenders, Costa-Gavras. O próprio Gillo Pontecorvo, diretor de clássicos políticos como "A Batalha de Argel" e "Queimada" e, durante anos, delegado-geral do Festival de Cannes, não pôde vir ao Brasil, embora tivesse confirmado sua participação.
Mas Pontecorvo fez-se representar pelo produtor italiano Sandro Silvestri e terminou assinando o documento redigido ao fim de dois dias de negociações. Não apenas ele: também ausentes do evento, diretores como Costa-Gavras, Marco Bellocchio e Ettore Scola mantiveram-se em contato permanente com o que ocorria no Rio e também são signatários da carta de quatro pontos que será encaminhada, amanhã ou na terça-feira aos 49 chefes de Estado e de Governo reunidos no Rio.
Foi esse o objetivo que levou a Secretaria do Audiovisual a organizar o encontro, às vésperas da Cimeira, a reunião de cúpula entre líderes da América Latina, do Caribe e da Comunidade Européia. A idéia era justamente tirar um documento para ser encaminhado aos chefes de Estado e de Governo
com as reivindicações de produtores e diretores para o incremento da produção cinematográfica e audiovisual nos países da Europa e da América Latina. Não por acaso, o seminário, originalmente chamado de Impasses do Cinema Latino-Americano e Europeu, intitulou-se a si mesmo 1.º Seminário de Cineastas Euro-Latino-Americanos do Rio de Janeiro. Nele foi organizado também o 1.º Foro de Cineastas Euro-Latino-Americanos do Rio de Janeiro.
A união européia e latina em torno das mesmas bandeiras têm razão de ser. Europa e América Latina padecem dos mesmos problemas em relação ao cinema. São continentes ocupados pela produção americana. No Brasil, conforme os números que circularam no evento, a produção nacional participa com apenas 2 a 3% do mercado. Na Europa, o número não é muito melhor: 5%. Discutiram-se alternativas para melhorar esses números. "Não queremos restringir o produto cinematográfico dos Estados Unidos", disse o produtor Luiz Carlos Barreto, que se declarou admirador da produção americana. "O que queremos é igualdade de condições, porque o mercado não pode resolver sozinho as distorções estabelecidas durante décadas."
Promessas - Inaugurado pelo secretário da Cultura, Francisco Weffort, e pelo secretário do Audiovisual, José álvaro Moisés, o seminário teve na mesa uma participação ilustre: a do representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Leo Harari. A (boa) novidade é que o BID está disposto a investir na produção cinematográfica dos países da América Latina e do Caribe. Harari foi muito aplaudido ao dizer que não há desenvolvimento econômico "sem desenvolvimento cultural."
São promessas, por enquanto. Na coletiva de encerramento do seminário, Harari fugiu o quanto pôde ao comprometimento numérico. Não disse e nem sequer insinuou quanto o BID poderá aplicar no cinema da América Latina e do Caribe. Mas disse que, de posse do documento a ser encaminhado aos líderes da Cimeira, será possível iniciar um protocolo de intenções e discussões. "Esse documento é um mandato que vocês nos dão para podermos começar a discutir a concretização de projetos", disse Harari. Foi um documento redigido com prudência, em termos diplomáticos. "Não adianta formular uma declaração de guerra; com uma linguagem agressiva não vamos conseguir nada", havia advertido Harari na sexta-feira.
Ele reconhece que as chances de aprovação das linhas de crédito para o cinema são grandes. Os países representados na Cimeira são sócios majoritários do banco, com cerca de 51% das ações. Mas há dificuldades: os Estados Unidos, identificados como o grande inimigo das cinematografias nacionais e regionais, por sua ostensiva ocupação do mercado mundial, contribuem sozinhos com 30% do capital do BID. Não se deve ter ilusões quanto ao envolvimento americano numa operação que, se for bem sucedida, terá como consequência justamente uma diminuição dos seus mercados.
Não faltaram discursos emocionados nem acusações ao grande inimigo. Fernando Solanas, que o ministro Weffort definiu como um dos grandes produção cultural na América Latina, lembrando principalmente o impacto produzido por seu filme "La Hora de los Hornos", comparou a situação do cinema latino-americano a uma casa tomada, em que os donos terminam tendo de colocar a cama no banheiro porque os melhores cômodos já foram ocupados. Miguel Litttin, diretor de outro dos mais belos filmes políticos latino-americanos, "El Chacal de Nahueltoro", disse que não devemos ter medo das palavras e definiu a política americana para o seu cinema como "imperialista". Luiz Carlos Barreto prosseguiu na mesma linha e acusou os americanos de praticar dumping no cinema.
Barreto citou uma entrevista recente de Jack Valenti para Variety, a bíblia do show business americano. Analisando a confortável posição dominante da produção americana nos mercados mundiais (um domínio de cerca de 90%), Valenti formulou o objetivo de Hollywood para 2010 - 100%. Não é brincadeira. Valenti foi durante décadas o representante dos interesses da indústria americana de cinema no Brasil. É o atual homem forte da MPA, a Motion Pictures Association dos Estados Unidos, entidade com força política, que define as estratégias da indústria do cinema americano nos mercados interno e externo.
Barreto começou a sexta-feira propondo a criação de uma MPA latino-americana, para lutar politicamente pelos direitos do cinema no continente. Foi dissuadido por alguns colegas, que acharam que a criação de tal entidade enfraqueceria outras como a Fipca, Federação Ibero-Americana de Produção Cinematográfica e Audiovisual.
Secretário da Fipca, Gerardo Herrero, que também é presidente da Federação das Associações de Produtores Audiovisuais Espanhóis, a Fapae, defendeu que o possível aporte do BID seja direcionado para o Intermedia, fundo formado por nove países - Espanha, México, Portugal, Argentina, Brasil, Venezuela, Cuba, Uruguai e Chile. Entusiasmado com os rumos do Canal Brasil, destinado a divulgar a produção cinematográfica e audiovisual no País, Barreto propôs que seja criado um canal da América Latina. "A produção cinematográfica e audiovisual do continente movimenta mais de US$ 14 bilhões", disse ele, acrescentando que, deste total, os produtores cinematográficos e audiovisuais latinos ficam com pouco mais de US$ 1 bilhão. "Quem fica com os outros US$ 13 bilhões?", perguntou Barreto. Todos sabiam a resposta no seminário do Hotel Glória.


