Cineastas alemães decifram personalidades
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 08 (AE) - Ela foi um dos maiores mitos femininos da tela. Marlene Dietrich, a personificação suprema da vamp, estava com 82 anos quando aceitou participar do documentário que o ator e diretor Maximilian Schell lhe dedicou. Mas Marlene impôs suas condições: não quis ser filmada, emprestando apenas sua voz. Falou, de acordo com o que estava definido no contrato, em inglês e alemão, em dez grandes sessões de gravações que foram realizadas no seu apartamento em Paris. Para ilustrar o material gravado, Schell teve acesso a imagens da coleção particular de Marlene e aos inúmeros filmes que ela rodou.
Marlene é um dos quatro títulos que integram a mostra "Documentários Alemães: Vida e Obra", de amanhã ao dia 13 no Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158, em São Paulo). A programação começa amanhã, em sessões às 19 e 21 horas, com "O Filme de Nick: Raio sobre a água", de Wim Wenders, e prossegue exibindo "Marlene, não Quero apenas Que Vocês Me Amem", de Hans Pflaum, "Tokyo-Ga", de Wenders, e "O Filme de Nick", de Wenders, de novo. São todos documentários que retratam grandes personalidades do cinema, entre atores e diretores.
Schell começa elogiando Marlene, mas diante das imagens célebres de "O Anjo Azul", de Josef Von Sternberg, ela rebate: "Estou ridícula sentada naquele barril." Não é o que pensa o público. Há quase 70 anos, Marlene, cantando "Da Cabeça aos Pés Sou Feita para o Amor", é uma das imagens definitivas da sedução na tela. Foi uma mulher de grandes amores. Com o escritor Ernest Hemingway. viveu uma grande paixão platônica. "Hemingway estava acima do sexual", confessa. "A maioria dos casos de amor se estragam na cama", ensina.
O amor também está no centro do documentário de Hans Pflaum sobre Rainer Werner Fassbinder. Perguntaram certa vez ao diretor alemão se ele achava que as pessoas próximas o amavam. Fassbinder respondeu: "Eu dificulto tanto a tarefa que sobram poucos para me amar." Esses poucos são entrevistados por Pflaum para tecer o seu retrato de Fassbinder: as atrizes Hanna Schygulla e Ingrid Caven, os cineastas Volker Schlondorff e Peter Zadek, o fotógrafo Michael Balhaus e o músico Peer Raben.
Pflaum não tenta explicar Fassbinder e muito menos tenta reduzi-lo a uma fórmula ou enigma. Por meio de entrevistas e cenas de filmes, mostra como Fassbinder criou a sua estética estática, de câmera parada, apenas porque só dispunha de uma velha câmera, difícil de mexer, quando começou a filmar. Emerge do documentário o Fassbinder que denunciava a tirania amorosa e para quem o amor não passava de um instrumento de repressão social.
Os dois documentários restantes são de Wenders, sobre Nicholas Ray e o mestre japonês Yasujiro Ozu. Ray, o poeta maldito do cultuado "Juventude Transviada", estava morrendo de câncer quando foi filmado por Wenders (em "O Filme de Nick"). São algumas das imagens mais impressionantes registradas por uma câmera e uma reflexão: o cinema é instrumento de vida e morte. De vida porque permite às coisas e pessoas continuar existindo após a sua degradação física. De morte, porque no filme está a negação da existência concreta.
Tokyo-Ga documenta a viagem de Wenders ao Japão em busca dos signos de um dos maiores autores cinematográficos que já existiram: Ozu. Falando sobre a Tóquio contemporânea, o diretor alemão retraça a importância do mestre da câmera baixa, a câmera ao nível do observador sentado no tatame. Conclui que Ozu continua imprescindível e atual, mesmo tendo morrido nos anos 60.


