São Paulo, 06 (AE) - Para curtir o filme de Radu Mihaileanou é bom recordar uma das mais marcantes características da cultura judaica - o humor. Ou seja, a capacidade de rir do próximo e (sobretudo) de si mesmo, nos bons momentos e nos maus. Freud falou um bocado desse senso de humor. Foi criado nisso. E o utilizou como elemento de investigação em seu livro "O Chiste e sua Relação com o Inconsciente". Chiste? Bem, não se encontrou até hoje tradução melhor para o alemão "Witz" - dito espirituoso, piada, ou frase de efeito cômico. Enfim, Mihaileanou parece ter inovado ao tratar de forma humorada, leve, irônica, a tragédia da perseguição aos judeus durante a 2.ª Guerra Mundial. Sendo ele mesmo judeu, achou-se no direito de comentar a shoá "deixando de lado sua carga dramática", como disse, depois de ver uma obra inversa, "A Lista de Schindler", do também judeu Steven Spielberg. A justificativa de Mihaileanou é que foram feitos incontáveis filmes dramáticos sobre o holocausto. Já teriam esgotado o tema.
A outra justificativa é que não seria o primeiro a revisitar o horror pela via do riso. Chaplin já o fizera em seu genial "O Grande Ditador", suprema gozação em cima de Hitler e do autoritarismo em geral. Isso, claro, para não falar no badalado "A Vida É Bela", de Roberto Benigni, vencedor do Oscar de filme estrangeiro no ano passado. Há outro precedente, "O Dia em Que o Palhaço Chorou", de Jerry Lewis, que não chegou a ser distribuído em razão de vários problemas, entre eles, diz-se, pressões da comunidade judaica, que o teria achado desrespeitoso.
Lewis, Benigni e o próprio Mihaileanou achavam que a intenção de seus projetos era suficientemente clara: queriam ver como as pessoas, mesmo submetidas ao horror extremo, não caíam na mais profunda prostração. Continuavam vivendo, lutavam como podiam, esperavam. O senso de humor, mesmo em condições-limites, seria fator fundamental de sobrevivência. Essas obras significariam a exaltação dessa característica positiva e não uma chacota sobre o genocídio. Como tudo isso é discutível, a vocação inequívoca desse tipo de filme é a polêmica. Foi assim com Benigni e também pode acontecer com Mihaileanou. Paciência.
Esse lado, digamos assim, ideológico, não pode ser ignorado. Filmes como qualquer outro tipo de obra de arte não são formas vazias. Veiculam conteúdos e estes são passíveis de crítica extracinematográfica, embora a turma do pós-tudo ache que não. Engraçado - O fato é que "Trem da Vida", bem-visto, não é de molde a ofender ninguém. Muito pelo contrário. Não apenas evita o desrespeito com o sofrimento alheio como presta homenagem a uma cultura e a um modo de vida. Mihaileanou evoca toda uma tradição judaica que conheceu em pequeno, na Romênia; encanta-se com as histórias que ouvia do pai e faz uma viagem sentimental às suas raízes. É amoroso com o tema.
E, claro, o filme é muito engraçado. Há nele ótimas tiradas. Por exemplo, a lição para que os falsos nazistas falem alemão sem nenhum sotaque: expurgar qualquer resquício de senso de humor. Ou o sobrenome revelado pelo louquinho criativo, que iria se tornar muito conhecido tempos depois. A música também tem papel importante, criando um clima de ópera alucinada, semelhante ao dos filmes do bósnio Emir Kusturica. De Kusturica, "Trem da Vida" bebe também a ambientação feérica, luminosa, solar, mesmo que fale de seres à beira do abismo.
De quebra, como uma espécie de benefício secundário, "Trem da Vida" apresenta uma curiosa observação sobre o exercício do poder. Não deixa de ser significativo o fato de o falso nazista ficar tão tomado pelo papel que começa a oprimir seus próprios companheiros. A embriaguez do poder. A barganha de pequenos favores em tempo de dificuldades. Grandezas e baixezas entre os perseguidos. Tudo isso foi descrito muito tempo antes, por um autor tão insuspeito quanto Primo Levi. Mas quando chega ao cinema é diferente.

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