Depois do controvertido ‘‘Estorvo’’, baseado no livro de Chico Buarque, há uma expectativa sobre qual será o tratamento que o diretor Ruy Guerra dará ao épico londrinense. Como particularidade do diretor, destaca-se a capacidade de se reinventar a cada obra, aliando apurada proposta estética às questões sociais. ‘‘Estética e preocupações sociais não são compartimentos estanques. Não disassocio a temática do pressuposto de linguagem. Me interessa a temática e a maneira de contar a história’’, afirma Guerra. Seus filmes procuram retratar de maneira esteticamente inovadora a opressão e a exploração sócio-econômica.
‘‘Ser cineasta é uma coisa esquisita, você precisa ver seu primeiro filme para ver o que você é um pouco’’. Tendo filmado em vários países, Ruy Guerra é associado ao cinema brasileiro como um dos precursores do Cinema Novo na década de 60. ‘‘Os Cafajestes’’ se destaca por ser um dos raros sucessos comerciais do movimento cinemanovista. Com a marca de inovadores estão ‘‘Os Fuzis’’ e ‘‘Os Deuses e os Mortos’’. Em seu currículo constam ‘‘Ópera do Malandro’’, ‘‘A Fábula da Bela Palomera’’, ‘‘Erendira’’, ‘‘Kuarup’’ e ‘‘Estorvo’’. Outro projeto de Guerra está a adaptação do romance de Garcia Marques ‘‘La Mala Hora’’.
Como característica, o diretor procura aliar o racional ao instintivo no processo de trabalho. Cada vez mais, mergulha na discussão tempo-espaço. Para Guerra, narrar o tempo é colocá-lo no espaço. Costuma declarar que atualmente interessa o que há para esconder do enquadramento. Condena a dramaturgia americana redutora da realidade, que normatiza por baixo o cinema, transformando-o numa fábrica de salsicha.
‘‘Cinema é uma coisa estranhíssima. Independente do preço de custo, o bilhete é vendido sempre pelo mesmo preço. Já começa por essa aberração. Como produzir um filme de R$ 50 milhões com R$ 10 milhões. Essa equação de talento e custo de fabrição serve para mostrar a capacidade de produção’’, filosofa, depois de uma baforada de seu inseparável charuto.(F.F.)

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