Foi um personagem e tanto, esse Pasolini. Muitos críticos gostam de lançar pontes entre Glauber Rocha e ele. Mais do que diretores, teriam sido agitadores culturais e políticos, catalisando o debate sobre arte e revolução, arte e sociedade, nos respectivos países, Pasolini na Itália, Glauber no Brasil.
Jean Tulard, em seu ''Dicionário de Cinema'' (Editora L&PM), talvez exagere um pouco, mas considera Pasolini o mais forte personagem do cinema italiano e o mais escandaloso, também. Escritor, poeta, ensaísta, roteirista e diretor, ele começou a provocar polêmica no Partido Comunista, ao se assumir publicamente como homossexual, o que era considerado, no mínimo, como desvio contra-revolucionário pela linha-dura do partido.
Também era incômoda a forma como Pasolini tentava conciliar, em sua produção artística, a herança mística e o que ele considerava a vocação socialista do povo italiano. Esse conflito interno anima alguns de seus filmes mais famosos. Em ''O Evangelho segundo Mateus'', de 1964, os soldados de Herodes viram uma corja fascista, José e Maria parecem refugiados de tantos dramas análogos no mundo moderno e a própria mãe do cineasta, Susana Pasolini, interpreta Maria numa idade mais avançada, o que foi considerado o cúmulo do exibicionismo de Pasolini, que estaria a se comparar ao próprio Cristo. Quatro anos mais tarde, o choque foi maior ainda, com ''Teorema''.
Foi o terceiro filme de Pasolini com Silvana Mangano, após o episódio de ''As Bruxas'', de 1966, e ''Édipo Rei'', no ano seguinte, no qual ela foi uma majestosa Jocasta. Silvana ainda voltaria ao universo pasoliniano numa fugaz aparição em ''Decameron'', adaptado de Boccaccio e primeiro filme da trilogia da vida do autor (que seria completada com ''Os Contos de Canterbury'' e ''As Mil e Uma Noites de Pasolini'').
Nos anos 1940, Silvana irrompeu no cinema italiano como mito erótico, pondo de fora, em ''Arroz Maldito'', de Giuseppe De Santis, aquelas coxas que a transformaram objeto de desejo dos machos de todo o planeta. Pasolini e, logo em seguida, outro homossexual, Luchino Visconti, ''descarnaram'' a bela Silvana e a transformaram numa imagem etérea e um tanto idealizada de mulher.
Ela é pura angústia em ''Teorema'' e a cena do grito, quando expressa o desespero que o sexo não consegue aplacar - a boca crispada, os gestos tensos, os olhos fugidios -, deveria ser invocada como a própria negação da pornografia, da qual Pasolini foi acusado por Gustavo Corção, sem ter visto o filme. Pouco antes de morrer, comentando o próprio cinema, ele dizia que fazia seus filmes com total impudor, liberdade e ingenuidade.
Por isso mesmo, conseguia ser odiado pela direita e pela esquerda. A primeira o abominava por sua férrea oposição ao consumismo, que considerava o novo fascismo. Certos textos de Pasolini revelam-se hoje proféticos, antecipando o que é hoje o mundo globalizado pela economia neoliberal. A segunda não suportava a independência de Pasolini, a sua coragem de ser o que era.
Nada mais diferente de um filme de Pasolini do que outro de Robert Bresson, o mestre francês do silêncio, homenageado, esta semana, por um ciclo no Centro Cultural São Paulo. Mas há um elemento que talvez seja comum entre ambos. Pasolini, como Bresson, acreditava numa erupção do sagrado na vida cotidiana. O que os diferenciava mesmo era a noção de sexualidade, abstrata em Bresson, sempre forte em Pasolini.
Bresson usou um asno, em ''A Grande Testemunha'', para fazer a sua versão da paixão de Cristo. Pasolini, no ''Evangelho'', retratou o Cristo irado em luta contra a injustiça social. O cinema contou muitas vezes a história do Rei dos Reis, mas nunca mostrou, como ele, a cena em que Jesus usa o chicote para expulsar os vendilhões do templo. Pasolini também buscava a ascese. A lágrima que Laura Betti verte em ''Teorema'' procede do mais fundo do ser do artista.
(L.C.M.)
Serviço - ''Teorema''. Itália, 1968. Direção de Pier Paolo Pasolini. Distribuição da Versátil. Disponível nas locadoras.

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