Um protagonista que é ignorante, mas não burro, um canalha aproveitador que na verdade ajuda, um chefe bonzinho que sacaneia, uma prostituta que é uma prostituta mesmo e uma história tramada de modo que nada acontece ou é dito por acaso. Em seu primeiro longa-metragem, Estômago, o diretor Marcos Jorge já deixou bem claro que gosta mesmo é de subverter, mas de forma calculada. E a resposta foi mais que positiva: depois de ganhar 35 prêmios, sendo 15 internacionais, o filme agora vai ganhar um remake norte-americano.
''Até me perguntaram se eu não gostaria de dirigir, mas declinei. Não gostaria de fazer o mesmo filme duas vezes'', revelou Marcos, que na semana passada participou de uma aula magna para os alunos da pós-graduação em Cinema e Documentário na faculdade Pitágoras, em Londrina.
Embora a amplitude da repercussão de Estômago tenha sido uma surpresa, o talento do cineasta já havia sido explicitado anteriormente em outros trabalhos. Seus curtas ''Encontro'' (2002) e ''Infinitamente Maio'' (2003) também colecionam diversos prêmios.
E o diretor já está trabalhando na produção de seu terceiro longa (ele também dirigiu Corpos Celestes). ''Dois Sequestros'' mal saiu da cabeça de Marcos e Lusa Silvestre (também co-roteirista de Estômago) e já ganhou o prêmio de Desenvolvimento de Roteiro do Ministério da Cultura. Se Estômago enfocava a ética do poder, desta vez a história gira em torno da ética da justiça: um traficante tem seu cachorro levado pelo homem da carrocinha e, para se vingar, sequestra o filho desse cara. Rodrigo Santoro já está confirmado para o papel do traficante. As filmagens devem começar no segundo semestre do próximo ano. O longa está orçado em R$ 4 milhões - o dobro do orçamento de Estômago, mas ainda assim considerado de baixo custo.
Embora envolva aquele velho tema de violência + favela, a proposta de Marcos é diferente. ''Dois Sequestros fala da violência de forma intimista, da violência que acontece dentro da casa de uma pessoa. Não tem nenhuma cena violenta, nem dentro da favela; é bem direcionado'', diferencia, acrescentando tratar-se de ''um drama psicológico com pitadas de comédia''.
Para o diretor, a onda de filmes abordando a violência dentro das favelas começa com Cidade de Deus e se extingue com Tropa de Elite. ''Tropa de Elite fala de vingança do ponto de vista do Estado. Em Dois Sequestros, um cidadão decide fazer justiça com as próprias mãos mas não é fácil, ele vive um drama moral quando decide se vingar'', compara, acrescentando que não acredita em maniqueísmo. ''Alecrim (protagonista de Estômago) tem seu lado obscuro. Paulinho, o bandido do novo filme, é violento, malvado, mas vai ser vitimizado. Ele é carismático, malandro, fascinante'', adianta.
Mas uma outra tendência da produção nacional o preocupa: a das comédias românticas. ''Sem entrar no mérito da questão da qualidade, corremos o risco de uma nova hegemonia de comédia romântica ou filme de grande público. Não que público seja um indicativo da qualidade de um filme. Mas o que me preocupa é: para onde vai a diversidade do cinema brasileiro?'', questiona.
Na avaliação do diretor, que também já fez o documentário Ateliê de Luzia (sobre arte rupestre e grafites urbanos), e consegue viver de seu ofício, fazendo filmes, comerciais e documentários para tevê, fazer cinema hoje no Brasil ainda é um privilégio para poucos. E para aqueles que, como ele, começam pelos curtas-metragens para apurar a própria linguagem e conquistar reconhecimento, se destacar no cenário nacional também é um grande desafio. ''O cinema brasileiro tem dificuldade de circular. Por ano devem ser feitos cerca de mil curtas e o principal canal é por meio dos festivais. Assim, chamar a atenção é dificílimo'', reconhece.
Difícil, mas possível. Marcos revela que conhece as produções londrinenses de Rodrigo Grota, e que o premiado curta Satori Uso inclusive abriu a exibição de Estômago no Rio em 2007. ''Não conheço, mas deve ter vários outros curtas de qualidade produzidos em Londrina, mostrando que o importante não é onde você produz, mas o que você faz'', sugere, dando uma receita simples para quem quer fazer cinema hoje: ''É preciso ter talento e perseverança.''

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