Cineasta exalta a sensualidade da Veneza do século 16 no longa "Em Luta Pelo Amor"
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 22 (AE) - É um filme dos produtores de "Lendas da Paixão", o que certamente pode constituir-se numa credencial para o público, mas não para os críticos, que deploraram, com razão, a adaptação que o diretor Edward Zwick fez do belo livro de Jim Harrison. "Lendas da Paixão" celebrava um personagem masculino, interpretado por Brad Pitt, no qual se podia reencontrar a pureza de certos heróis míticos, como Percival e Lohengrin, aliada à danação interior de Lord Jim e do capitão Ahab. "Em Luta pelo Amor" celebra agora uma mulher, uma reencarnação de Vênus e Circe. Invertem-se os papéis: Marshall Herskovitz, que era co-produtor do filme de Zwick, é o diretor e Zwick atua como produtor associado.
Não é uma mulher qualquer. Interpretada por Catherine McCormack (de Coração Valente), é a célebre cortesã veneziana Veronica Franco, à qual o diretor e a roteirista Jeannine Dominy resolveram dar uma abordagem moderna. Tudo começou quando um exemplar do livro "The Honest Cortesan" chegou à produtora de Herskovitz e Zwick. Veronica, que viveu em Veneza, no século 16, foi uma mulher adiante do seu tempo. Jeannine resume: "De certa maneira, ela é uma figura bastante contemporânea, alguém que combina seu intelecto, as emoções e os atributos físicos para criar um destino singular para si mesma".
Tudo começa quando Veronica é rejeitada pelo amado, que é pressionado pela família a aceitar um casamento de conveniência, em nome dos laços políticos e familiares. Decepcionada, a heroína entrega-se à orientação da mãe (a veterana Jacqueline Bisset, ainda bela), que a treina para ser cortesã. Veronica vira uma grande cortesã. Seduz o próprio rei da França e consegue favores reais para Veneza, mas nunca deixa de amar Marco Venier (Rufus Sewell).
Herskovitz baseou-se no visual de Caravaggio para criar a sua Veneza cosmopolita e sensual. O diretor explica: "Sempre me ensinaram o caminho do realismo, mas se realizasse o filme num estilo naturalista as pessoas veriam como as ruas e as casas eram sujas, como a atmosfera era escura e nebulosa e como eles usavam um centímetro de maquiagem no rosto". Não é, como ele acrescenta, que quisesse embelezar sua Veneza seiscentista. Queria ser fiel ao espírito da personagem: "Fiquei fascinado com a idéia de que as cortesãs viam o trabalho delas como a oportunidade de criar um mundo de prazer, não só por meio do sexo, mas também das conversas, comidas, roupas".
Embora superficialmente, o filme toca em várias questões importantes: depois de ser consagrada heroína nacional, Veronica é responsabilizada pela peste que atinge Veneza e levada a julgamento pela Inquisição, que permite ao cineasta discutir o poder temporal contra o religioso, as tentações da carne e o rigor da repressão. Não menos interessante é o machismo do herói
confrontado com a liberalidade da mulher. Marco acha natural que tenha de dormir com sua mulher por dever conjugal, mas não aceita quando Veronica se deita com o rei, mesmo que o sucesso de Veneza na guerra dependa dessa aliança. O machismo não impede o herói de bater-se por ela, assumindo que a dividiu com outros homens, quando Veronica corre risco de vida.
O resultado pode ser medido no fato de o filme ter sido aplaudido pelo público na sessão realizada na quarta-feira à noite, na Hebraica, em São Paulo. Muitos espectadores saíram comentando a beleza de Veneza. Há tomadas na cidade, mas, de maneira geral, Herskovitz recriou os canais venezianos em estúdio, mais exatamente em Cinecittà, como Federico Fellini gostava de fazer. O desenho de produção (de Norman Garwood), os figurinos (de Gabriella Pescucci, vencedora do Oscar por A Idade da Inocência) contribuem para um filme que é pura festa para os olhos, além de exaltação da sensualidade.


