Cineasta estréia no teatro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de março de 2003
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A lembrança mais recente da obra ''Grandes Esperanças'', de Charles Dickens (1812-1970) talvez seja a de Gwyneth Paltrow interpretando a jovem Estella, no filme dirigido por Alfonso Cuarón. Lançado em 1998, o longa traz no elenco, além de Paltrow, Robert de Niro e Etahw Hawke. Não foi a única adaptação da obra para o cinema. Uma menos comercial e mais interessante foi levada às telas em 1946 e ganhou o Oscar de melhor fotografia e direção de arte. Agora, o cineasta paranaense Luciano Coelho muda o foco do clássico romance e o leva aos palcos na peça homônima que estréia hoje, em Curitiba.
A atenção dispensada à obra não acontece por acaso. A novela inglesa foi publicada em capítulos semanais entre 1860 e 1861 e chamou a atenção pela trama cheia de reviravoltas e surpresas. Conta a história, para resumir bem, que um jovem pobre se apaixona por uma menina rica. Esta, criada por uma tia com uma personalidade amarga e que guarda um segredo que pode explicar as suas atitudes. A passagem do garoto para a adolescência e de três pessoas que transformam a sua vida são o foco da trama. Um desafio quando se trata de levar tal rede de intrigas para o palco.
A peça''Grandes Esperanças'' tem a vantagem de reunir bons atores e a dificuldade de condensar a trama milimétrica de Dickens nas quatro paredes do teatro. Essa é a primeira incursão do cineasta na direção de um espetáculo teatral. ''É uma mudança de linguagem, mas decidi aceitar o desafio'', diz Coelho, que ganhou dois Kikitos no Festival de Gramado do ano passado com o média-metragem ''O Fim do Ciúme'', dirigido por ele.
A proposta surgiu a convite da atriz Elisangêla Rosa, a Janja, que tinha inscrito o projeto da Lei Municipal de Incentivo à Cultura em 1992. Como a lei é um tanto, digamos, lenta, no que diz respeito à aprovação dos projetos culturais, a proposta só ''passou'' em meados do ano passado. Período que Coelho e o ator Marcelo Munhoz, que também integra o elenco do espetáculo, tiveram para adaptar o texto para o teatro. Os ensaios começaram em janeiro.
A idéia inicial era levar ao palco algumas ferramentas do cinema tão comuns à experiência profissional de Coelho, como as projeções, mas o cineasta decidiu mudar de idéia e fazer uma adaptação mais adequada à realidade teatral. O resultado, ele adianta, é um espetáculo minimalista que abusa dos recursos cênicos. ''Deixamos a alegoria do cenário para a cabeça dos espectadores'', exemplifica o diretor.
Na prática, isso significa que o ambiente suntuoso em que se que passa a trama como a mansão da Senhora Havishan (interpretada por Regina Bastos) é desenhado pela luz, assinada por Beto Bruel. O figurino da peça, originalmente ambientada no século 19, também foi substituído por uma criação atemporal. ''Não definimos a época, não situamos o tempo, contamos a história'', diz Coelho. Tanto figurino como cenário são assinados por Guilherme Macedo.
No elenco, Marísia Brunning vive a severa irmã que cria o pequeno Pip, protagonista da trama interpretado por André Coelho quando criança e por Marcelo Munhoz quando adulto. O jovem órfão vê sua vida se transformar quando um benfeitor resolve cuidar da sua educação, uma ponte para chegar ao coração de Estela, interpretada no espetáculo por Janja. Também integram o elenco, Marcio Mattana, Miguel Bretas, Gabriel Gorosito e Nilo Dorr.
Permeia o espetáculo a trilha sonora do grupo americano Rachel's, que foca o seu trabalho na música de câmara. ''Para criar a trilha, utilizei os quatro discos já gravados pelo Rachel's'', conta Coelho. O diretor já tinha tido uma bem-sucedida experiência na criação de trilhas sonora para o teatro no espetáculo sobre Nelson Rodrigues, dirigido por Edson Bueno em 2001.
Quanto à primeira experiência do cineasta na direção de teatro, ele ressalta que essa pretende não ser a sua única incursão cênica. ''No teatro, o processo de criação é mais longo, dá para criar símbolos maiores'', compara. Salienta, no entanto, que pretende ter uma liberdade de escolha maior na próxima tomada, já que ''Grandes Experiências'' já tinha sido definido.
A peça entra em cartaz hoje e permanece durante o Fringe, a mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba.
Serviço: ''Grandes Esperanças'', de hoje a 20 de março e de 2 a 13 de abril, no Teatro José Maria Santos (Rua 13 de maio, 655), em Curitiba. De quarta a sábado, às 21 horas. Domingo às 19 horas. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes e classe artística).


