Cineasta discute o herói da Inconfidência em "Tiradentes", que estréia amanhã
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quarta-feira, 14 de abril de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 15 (AE) - Logo no começo de "Tiradentes", o herói da Inconfidência é mostrado como um aventureiro que participa de uma caçada humana. A cena é vista pelos monarquistas colocados do lado de lá do rio, como se a ação fosse vista num palco privilegiado. A cena termina quando o herói é acusado de traição (veja o filme para saber do que se trata exatamente). Bastam esses cinco ou dez minutos iniciais de "Tiradentes" para que o diretor Oswaldo Caldeira coloque o tema do seu filme que estréia amanhã (16) em São Paulo, no Rio e em Minas.
Caldeira conta que o projeto surgiu quando preparava sua tese de doutorado sobre a evolução da imagem de Tiradentes, na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele descobriu que não havia registros sobre o aspecto físico dele e sua cara mudava conforme a situação do País. "Quando a corrente sociológica dominante no Brasil era o positivismo, Tiradentes ficava com cara de santo, assemelhava-se ao Cristo", conta.
É contra essa imagem tradicional que o filme se insurge. Em todos os filmes que realizou, do curta "Passe Livre" aos longas "O Bom Burguês" e "O Grande Mentecapto", Caldeira foi sempre atraído por personagens loucos, sonhadores, visionários. Seu objetivo, agora, não é desmistificar o personagem histórico, como Joaquim Pedro de Andrade fez em "Os Inconfidentes", no começo dos anos 70. Era a época da ditadura e Joaquim Pedro metaforizava, usando Tiradentes para discutir a situação do País. Passaram-se quase 30 anos, as condições são outras e Caldeira pretende aproximar-se da verdade, sem cair no oficialismo. Ele é o primeiro a dizer que trabalha com informações de segunda mão. "Não estou dizendo nada de novo ou que nunca tenha sido revelado". O que se propõe é a juntar fragmentos de imagens, de forma a obter uma imagem mais humana de Tiradentes e a fazer aproximações entre os vestígios da época.
Num certo sentido, Caldeira dialoga com o filme de Joaquim Pedro, que também mostrava um Tiradentes sem barba, distante (na interpretação de José Wilker) da imagem de Jesus Cristo com que foi estratificado pela historiografia oficial. O de Caldeira, interpretado por Humberto Martins, continua o do filme de Joaquim no sentido de pensar o Brasil e entender o que aconteceu conosco. "Se toda aquela riqueza que ia para fora do Brasil - o ouro - ficasse aqui, como queriam os conjurados, tudo poderia ser diferente, o País seria outro, talvez a melhor terra do mundo", diz o diretor.
Não foi uma obra de fácil concretização. A rodagem começou em Ouro Preto, em 1995. Foi interrompida por quase meio ano em consequência de problemas técnicos. Retomado em 1996, o filme enfrentou novos problemas quando Glória Pires, que fazia Bárbara Heliodora, teve de ser substituída por Adriana Esteves. O cineasta revela que o filme custou mais de R$ 2 milhões, mas também deixa claro que nunca teve esse dinheiro nas mãos. Além das interrupções que contribuíram para encarecer "Tiradentes", boa parte do montante da produção veio sob a forma de permuta, em transporte, hospedagem, alimentação e material.
"Tiradentes" chega para provocar discussão. É um filme irregular e talvez esteja longe de ser bom, com suas liberdades, como incluir na trilha a canção Blowin in the Wind, de Bob Dylan, seus excessos e a diversidade das interpretações (Martins naturalista, Ruy Resende épico, glauberiano, Paulo Autran teatral e Rodolfo Bottino, como Silvério dos Reis, falando diretamente para o espectador). Mas toda essa diversidade está a serviço do tema, que é repensar o papel de Tiradentes na Inconfidência, a própria imagem do herói. Ao mesmo tempo ingênuo e rude, mulherengo e aventureiro, ele foi, para Caldeira, o propagandista obsessivo que se expôs mais do que os companheiros e foi pego de surpresa quando por eles denunciado como líder da Inconfidência.


