Cineasta da transgressão exibe a sua arte em SP
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segunda-feira, 25 de outubro de 1999
por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 26 (AE) - No Festival de Cannes deste ano, ao apresentar "Ghost Dog: The Way of the Samurai", o cineasta americano Jim Jarmusch citou o nome de Seijun Suzuki, ao dizer que o filme comportava um certo número de homenagens ao cinema japonês, sendo, como é o dele, um trabalho sobre um nostálgico do código de honra dos antigos guerreiros do Japão. "Ghost Dog" integra a programação da 23ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Dela também participa Suzuki, homenageado com uma retrospectiva de seus filmes. Na quarta, passam dois: "O Vadio de Tóquio", na Sala Cinemateca, às 15 horas, e "A Marca do Assassino", às 21h45, no MIS. Suzuki está em São Paulo para participar do evento. Sua rotina tem sido ver filmes - não os dele, mas de outros diretores que também estão no programa. No domingo, foi à Hípica.
Hoje viajou para Camburizinho, no litoral, onde a mostra tem convênio com A Pousada das Praias. O lugar, na junção do rio com o mar, é paradisíaco. Suzuki volta na quarta para São Paulo, fica mais dois dias e depois regressa para o Japão. No catálogo da mostra, Leon Cakoff não deixa por menos e diz que se trata de um pensador radical, debochado, cheio de ironia e magia, de coração sempre adolescente. Era o que assinalava Jarmusch: ao homenagear Suzuki, queria destacar justamente o autor que busca fórmulas de romper com a narrativa tradicional.
O cineasta surgiu na nouvelle vague japonesa dos anos 60. Todos os críticos são unânimes em destacar que ele, trabalhando para os grandes estúdios, conseguia desmontar, por meio da ação e do erotismo, a camisa-de-força das produções impostas. Cakoff compara-o a Carlos Reichenbach, que na Boca do Lixo, nos anos 70, também subvertia com conceitos estéticos e filosóficos produções na maioria das vezes voltadas à exploração fácil do baixo erotismo. Reichenbach, por sinal, contribuiu, com seu entusiasmo, para tornar possível a retrospectiva de Suzuki. Nascido em Tóquio, em 1923, era considerado um cineasta comercial até conseguir dar plena vazão ao seu temperamento transgressivo. "O Vadio de Tóquio" é de 1966, "A Marca do Assassino", de 1967. O primeiro conta a história de um jovem trapaceiro que se envolve em complicações e é forçado a abandonar Tóquio, refugiando-se no interior. Só que ele é perseguido pela polícia e pelos inimigos e volta à capital para resolver sua situação. O segundo é um marco na obra do diretor.
Ele trabalhava na empresa Nikkatsu quando concebeu esse "filme-delírio" (definição da crítica Lúcia Nagib) sobre gângsteres, traições e perseguições. O filme foi considerado incompreensível para o público e Suzuki foi demitido da Nikkatsu. Durante dez anos ficou impedido de filmar, voltando com História de Melancolia e Tristeza, de 1977. Mas foi com Yumeji, no começo dos anos 90, que voltou a revolucionar o cinema japonês. Produção independente, "extremamente pessoal" (como a define Reichenbach), Yumeji não conseguiu distribuidor no Japão. Suzuki criou então um cinema de lona itinerante, com o qual percorreu o país, realizando sessões de seu filme para um público entusiasta. Reichenbach destaca as fusões e o uso da cor como características marcantes do estilo de Suzuki. Diz que é um dos cineastas mais criativos que jamais conheceu. Acha até que a escolha de Cakoff, realizando uma retrospectiva desse diretor tão importante e pouco conhecido, ratifica a mostra como espaço privilegiado da divulgação do cinema de ponta, autoral e ousado, no País.


