São Paulo, 22 (AE) - A indicação para o Prêmio Multicultural Estadão não é o único reconhecimento que Júlio Bressane recebe para sua obra neste início de ano. Ele também será homenageado pelo Festival do Porto, que começa na sexta-feira. Ivan Cardoso realizou uma pequena retrospectiva de sua obra, formada por cinco filmes, que incluem "Matou a Família e Foi ao Cinema", "Os Sertões" e "Miramar". A seguir, a entrevista com o cineasta. Ele fala sobre os prêmios, sua obra e discute os caminhos do cinema no Brasil. Pergunta - O que significam prêmios para você? Júlio Bressane - Como todo ser vivente, sou afetado pelo reconhecimento e o estímulo de um prêmio. Este, particularmente (a indicação para o Multicultural Estadão), é uma surpresa pelo seu espectro tão grande. Pergunta - Que sentido têm para você, hoje, as noções de "experimental", "vanguarda" e "marginal"? Bressane - Faltou o termo mais bárbaro, que é o "udigrudi". Todas essas classificações têm muito de arbitrário, mas também explicam alguma coisa. Eu gostaria muito de fazer parte de todas elas. Não acho que consegui enquadrar-me rigorosamente em cada um desses signos. Talvez tenha passado por alguns de seus limites ou os transpassado. O que acho perverso, satânico nisso, é quando significa uma maneira de vetar, alijar, cercear oportunidades. Não foi o gosto popular que afastou o Rogério (Sganzerla), eu e outros do processo. Pergunta - Hoje, porém, não existem mais as dualidades por trás da acepção que esses termos tiveram nos anos 60. Tudo se dá dentro de um só bloco sistêmico. Bressane - Penso esses termos sempre em função do passado, de uma tradição. Nesse sentido, isso pode servir de alimento, educação e até de cirurgia sensível. Fechar os olhos para essas tradições é um preconceito absurdo. A meu ver, esses experimentos, essas relações novas de linguagem são feitos sem que se perceba. Esses distúrbios são, de alguma maneira, involuntários. Hoje o que eu busco é uma coisa em que eu não tenha mais controle. Um processo desconhecido. Pergunta - O cinema brasileiro assumiu, a partir dos anos 80, o primado da técnica: aperfeiçoamento do som, do acabamento plástico. Você se sente parte disso? Júlio Bressane - A compra de tecnologia é típica e cíclica no cinema brasileiro. É como as montadoras de carros. Meu temor é que essas tecnologias fiquem superiores à nossa capacidade para explorá-las por inteiro. A imagem é do Herman Melville em Moby Dick: botar o escafandro para entrar numa banheira. Não basta comprar uma Panavision para apenas ligá-la. É provinciano achar que os filmes serão bons apenas porque a tecnologia é boa. Pergunta - Teria havido uma perda dessa potência dos anos 60 para cá? Bressane - Dizem que a história da humanidade é feita de perdas. O enxurro para o ralo é natural. A complexidade mental dos realizadores enfraqueceu-se no mundo inteiro. O que restou foi a subida da barbárie. É preciso estar antenado em coisas elevadas para ser influenciado por elas. Godard observou que o cinema não é como a literatura, que pode ser ensinada. É preciso fazê-lo para entender sua complexidade. Ser intelectual hoje é uma tarefa muito complexa. Segue Take 2

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