Cineasta a toda prova
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de junho de 1997
Maria dos Rosário Caetano Especial para AE 
Ruy Guerra acredita como ninguém na nova Lei do Audiovisual. Tanto que tem quatro projetos engatilhados para os próximos dois anos. Em setembro, ele dá início ao primeiro deles, Estorvo, a partir de romance homônimo de Chico Buarque, com produção de Bruno Stroppiana, da Skylight. Depois, comandará Quase Memória, a partir de romance de Carlos Heitor Cony, com produção de Mariza Leão e roteiro de José Roberto Torero. Ou Anita Garibaldi, com produção de sua ex-mulher, a atriz Cláudia Ohana, que também será a protagonista. E roteiro do experiente Joaquim Assis.
O quarto projeto, Maíra, baseia-se em livro de Darcy Ribeiro. O produtor ítalo-brasileiro Stelvio Rossi está levantando recursos. O projeto, aprovado pessoalmente por Darcy alguns meses antes de sua morte, está em fase de roteirização.
Os anos Collor, padrastos para o cinema brasileiro, levaram Ruy, cidadão do mundo, a viver longa estada no circuito Havana-Lisboa-Madri. Ao regressar, vinte meses atrás, Ruy o fez com raro ânimo. Seu último trabalho no terreno do audiovisual foi a minissérie Me Alquilo paras So¤ar, que realizou em parceria com Gabriel García Márquez para as TVs espanhola e cubana. Desde Kuarup, Ruy Guerra não dirige um longa.
Aos 65 anos, vive momento especial e efervescente. Cronista do jornal O Estado de São Paulo, reuniu seus melhores textos no livro Vinte Navios. Ocupa parte de suas manhãs dando aulas de análise de filmes (linguagem e direção cinematográfica) na Universidade Estácio de Sá, no Rio. Quando se encontra com o amigo Gabriel García Márquez, em viagens a Cuba ou México, os dois acrescentam alguns parágrafos no roteiro de U.S. Navy, projeto pelo qual nutrem estima especial. No terreno pessoal, Ruy Guerra vive o terceiro e feliz casamento com a atriz cubana, Leonor Arocha, de 29 anos.
O ex-marido de Leila Diniz e Cláudia Ohana continua bonito e muito vaidoso. Cultiva cabeleira vasta e grisalha, traja jeans rasgados, camisetas ou camisas leves, mantém o inseparável charuto e a retórica sessentista. Politizadíssima, claro. Não acredita no apregoado fim das ideologias.
Ruy Guerra chegou ao Brasil em 1958. Trocou o circuito Lourenço Marques/ (hoje Maputo) Lisboa/Paris pelo Rio de Janeiro, seu porto seguro. Dono de alma cigana (nasceu em Moçambique, estudou em Paris, morou em Lisboa, Havana, Madri e Rio), o ator (inclusive em filmes de Werner Herzog), compositor (parceiro de Sérgio Ricardo, Chico e Edu), dramaturgo (Calabar) e cineasta somou, em 40 anos de carreira, poucos filmes (apenas dez).
Dois de seus longas-metragens são obras-primas da cinematografia brasileira: Os Cafajestes (62) e Os Fuzis (64). Os outros títulos são Sweet Hunters (França, 69), Os Deuses e os Mortos (70), A Queda (76, parceria com Nélson Xavier), Mueda-Massacre e Memória (Moçambique, 78), Erêndira (México, 82), Ópera do Malandro (85), A Bela Polomera (86) e Kuarup (89). A eles, somam-se a minissérie em seis capítulos, Me Alquilo para So¤ar, que realizou para a TV espanhola, e 25 horas não editadas com imagens de Samora Machel, ex-presidente de Moçambique.
Você não trabalha, no Brasil, desde Kuarup, portanto, há mais de sete anos. Por que escolheu Estorvo, de Chico Buarque, livro de trama rarefeita, para marcar sua volta?
Ruy Guerra - Porque gosto muito do livro. Interesso-me, além da temática, pela forma como Chico (Buarque) manipula o tempo no plano real e imaginário. O que é real, o que é invenção, perguntamos. O que o personagem fabula, o que ele vive realmente? Quem é ele, o personagem principal do livro? Ele é um sujeito que tem medo desta sociedade difusa, sem ditadores, sem censuras, mas mesmo assim, assustadora.
Você garante continuar disposto à experimentação? E com vontade de realizar um filme em preto-e-branco. Este filme será Estorvo?
Guerra - Não. Desejo mesmo realizar um filme em preto-e-branco, mas não será Estorvo. Vou trabalhar uma história difícil e não posso criar mais este peso para o produtor. O mercado exibidor é muito resistente a filmes em preto-e-branco. Fica para outra oportunidade.
Seu último trabalho foi a minissérie Me Alquilo para So¤ar, escrita com García Márquez e produzida pela TV espanhola. Por que dois nomes estelares como o de Gabo e o seu não garantem a distribuição deste trabalho na TV brasileira?
Guerra - Sou um péssimo comerciante. Tentei vender a minissérie para a Rede Manchete, pois detenho os direitos para o mercado brasileiro, mas não consegui. Trata-se de trabalho com elenco internacional (a alemã Hanna Schygulla é a protagonista) e uma bela história. Continuo aberto a propostas. A série tem seis capítulos de 52 minutos cada e foi filmada em 35 milímetros.
Além de Estorvo, você quer filmar Quase Memória, de Cony, Anita Garibaldi, Maíra e U.S. Navy, nova parceria com García Máquez. São projetos para ocupá-lo até o ano 2000, não?
Guerra - Bem, se houver produtor, quero fazer pelo menos cinco filmes até o ano 2000. Este ano, faço Estorvo, ano que vem faço Quase Memória e o Anita Garibaldi. Nunca deixei de sonhar com Canudos. Fiz duas tentativas. A primeira com Vargas Llosa (A Guerra do Fim do Mundo). A segunda, com Eduardo Galeano. E não desisti, nem com o anúncio de A Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, pois meu projeto não mostrará a guerra em si, mas tudo que antecedeu o conflito.
O que há de concreto na produção de Quase Memória, Anita Garibaldi, Maíra e U.S. Navy?
Guerra - Li o livro do Cony de uma sentada. Fiquei apaixonado. Liguei para ele e fiz opção de compra. O (José Roberto) Torero já me entregou a primeira versão do roteiro. Quanto a Anita Garibaldi, está sendo roteirizado por Joaquim Assis. Em breve, Cláudia (Ohana) e eu iremos ao Rio Grande do Sul manter contatos com municípios que servirão como locações. Já Maíra é um projeto de Stelvio Rossi, que está em fase de captação financeira e pré-roteiro. Quanto a U.S. Navy, trata-se de roteiro original, que Gabo e eu estamos escrevendo. Ele me jura que sonhou a história inteira. Que abuso, protestei. Como é que se pode sonhar uma história inteira? Que privilégio é este? (Risos). Brincadeiras à parte, nos reunimos em Cartagena e esboçamos a trama básica - um dia na vida de dois marinheiros, que desembarcam de um porta-aviões americano, para visitar Cartagena de las Índias. Para esse projeto não há pressa.


