Cinderelas, lobos e príncipes
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de maio de 2009
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O sexo tem um lado perverso: o turismo do prazer em que, na noite, bares, boates e praias do litoral brasileiro, Cinderelas, lobos e príncipes confundem os papéis, como revela o documentário do premiado diretor Joel Zito Araújo.
''Cinderelas, Lobos e um Príncipe'' está sendo lançado nacionalmente em várias capitais do País. Julho será a vez de Curitiba assistir e debater o retrato ampliado da tragédia humana da exploração sexual.
Depoimentos colhidos no nordeste brasileiro e na Europa expõem outros lados dessa história.
''Nem todo turista em busca de sexo é um filho da mãe. Muitos são operários europeus de baixa renda, que não são valorizados pelas mulheres em seus países, viúvos e caras que querem casar. Existem mulheres que se prostituem para seduzir homens estrangeiros e casar. Encontrei muitas Cinderelas, lobos e até um príncipe encantado . É um filme de histórias pessoais e familiares'', afirma o diretor, Joel Zito Araújo.
Na intimidade com a pobreza, o longa busca a dimensão da exploração sexual de crianças, adolescentes, mulheres e travestis, encontrando embaixo desse comércio até relações de afeto.
Autor de livros e diretor de filmes premiados, como ''A Negação do Brasil'', vencedor do É Tudo Verdade 2001, e ''Filhas do Vento'', que faturou oito Kikitos no Festival de Gramado 2005, Araújo contou com proteção da Polícia Federal na produção do longa.
''Em Fortaleza, a equipe foi perseguida por um carro. Tentaram atrapalhar a filmagem'', conta o diretor.
Araújo lembra que em Roma também enfrentou problemas:
''Pedi para conversar com uma travesti que participaria de um concurso Miss Gay. Apareceu um cara de uns 70 anos e pinta de mafioso. Ele disse que estavam controlando tudo e para não insistirmos porque poderíamos nos dar mal'', conta Araújo.
Para chegar aos personagens, o diretor usou redes da sociedade civil e apoios importantes como a Unicef.
O diretor diz que o documentário é antipornô e que apesar da temática delicada, tem cenas hilárias. Por exemplo, a história de um viúvo alemão de 70 anos que casou com uma brasileira de 18 anos e que, depois de ser traído pela jovem, arranjou outro casamento com uma mineira. ''A entrevista acabou virando um terapia de casal'', comenta o diretor.
Araújo acredita em sapos que viram príncipes mas usa o trabalho para apontar alguns paradoxos. Ao mesmo tempo que considera aceitável uma mulher de classe média querer conhecer um turista estrangeiro e casar, a sociedade entende como exploração sexual quando uma jovem pobre e negra procura o mesmo objetivo.
A distribuição do longa pela Pipa Produções tem um esquema diferenciado. Parte dos ingressos chegam gratuitamente aos formadores de opinião e outra ao público que não tem acesso ao cinema. O diretor aprova: ''Acho que é um documentário para provocar debates. Não teria sentido o público assistir se não tivesse uma motivação. Além disso, se a distribuição não fosse gratuita, ficaria pouco tempo em cartaz, o que não seria produtivo para a discussão''.


