Celso Mattos
Embora seja um filme inspirado num conto de fadas, engana-se quem pensa que vai encontrar em ‘‘Para Sempre Cinderela’’ fadinhas e outros elementos da história da Cinderela do desenho animado da Disney. O diretor Andy Tennant faz uma releitura da fábula, transformando-a num conto sobre a perda do amor eterno. Essa correção começa nos primeiros minutos do filme. Os irmão Grimm, autores de uma das várias versões da lenda, são convocados para comparecer ao castelo de uma velha rainha, interpretada por Jeanne Moreau, para levar uma bronca e serem confrontados com a ‘‘verdade histórica’’ da vida de sua antepassada.
É essa história corrigida que a rainha começa a narrar para o telespectador. Ao contrário do que mostra o conto, Cinderela foi, na verdade, uma garota emancipada, que se preocupava muito mais com os livros de filosofia política e com a situação social dos oprimidos do que com vestidos e sapatinhos. Desde que criança seu livro de cabeceira era ‘‘Utopia’’, de Thomas More, e sempre que podia, criticava a injustiça social e defendia a educação da população. Para isso, ela não media as consequências. Se preciso fosse, saía na porrada para socorrer os necessitados e não hesitava em socar a irmã no meio da cara.
Mesmo sem elementos fantásticos, o filme cresce com a atuação de Drew Barrymore, no papel de Cinderela e, de Anjelica Huston que está ótima na pele da madrasta tirana que inferniza a vida da gata borralheira. ‘‘Para Sempre Cinderela’’ é um filme de índole mais renascentista do que romântica. Não existe milagre e nada é sobrenatural. Não adianta alimentar falsas esperanças. Cinderela aprende logo cedo que não é chorando no túmulo da mãe que seus desejos serão realizados. Para conquistar o amor do princípe encantado ela terá que ir a luta e, ao invés de pedir ajuda a uma fada madrinha, ela vai atrás de um gênio renascentista: Leonardo da Vinci.
Graças à inteligência do gênio, que dispensa a varinha mágica, Cinderela consegue não apenas conquistar o coração do princípe, mas também fazê-lo superar seus preconceitos de classe mais arraigados. Esse é outro detalhe interessante que o diretor acrescentou à história. Não são as fadas que ajudam Cinderela, mas o visionário Leonardo da Vinci. ‘‘Para Sempre Cinderela’’ está longe de ser um grande filme, mas garante duas horas de bom entretenimento com diálogos inteligentes e bem-humorados.
O filme marca também o renascimento da atriz Drew Barrymore que já esteve no fundo do poço, mas que conseguiu dar a volta por cima, investindo em sua imagem e carreira. Lançamento da Abril Vídeo. Duração: 121 minutos..

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