Nos registros da história teatral de Londrina, o nome do Grupo Delta ocupa posição de destaque. O lendário grupo criado pelo saudoso José Antônio Teodoro conquistou o Brasil e vários países, ao mostrar um trabalho genuíno com sotaque local. A trajetória de trabalho e sucesso teve início em 1978 com a peça ‘‘Os Filhos de Kennedy’’, do americano Robert Patrick, e ficou criogenizada em ‘‘Erêndira’’, adaptação da obra de Gabriel Garcia Marques, em 1988.
Depois desse hiato no tempo, alguns integrantes retornam juntos aos palcos, resgatando fatos, sensações e reminiscências da memória afetiva de uma geração de artistas. Desse apanhado na travessia do tempo-espaço surgiu a peça ‘‘Fragmentos Sobre o Tempo Perdido Antes Que Abra o Bar’’, de Maria Helena Carvalho, responsável pela direção e texto. A estréia acontece hoje, no Teatro Zaqueu de Melo, às 21 horas.
‘‘Esse trabalho é uma homenagem ao fazer teatral’’, resume a diretora. Há 13 anos ela reside em Santiago, no Chile, onde atua como docente na Universidad del Desarollo e no Teatro Imagem. A história da peça converge para a vida de cinco personagens num bar, antes de abrirem as portas aos frequentadores. São personagens arquetípicos: o ator, a dona-de-casa, a professora e o empresário. Juntam-se a eles um barman e um espectro, uma jovem perdida nos anos 70. As histórias dessa geração de perseverantes revelam a fragilidade dos sentimentos pessoais e o inconsciente coletivo de uma cidade provinciana-moderna e de um país. Nessa revisita ao passado, o ator (Donizeti Buganza) reflete a resistência na profissão cuja instabilidade é a marca registrada.
A relação com os ausentes ganha uma releitura e se transforma durante o tempo. ‘‘A peça não é uma história de ação e sim de reflexão. As pessoas se juntam para prestar contas. Fugimos do psicodrama. Ao final, cada personagem faz um manifesto rápido e o bar se abre’’, explica Maria Helena Carvalho. Para ela, o tempo dá elementos para uma análise mais crítica nas relações.
Nesse ‘‘entreato’’ da recessão do Delta, Ceres Vittori reitera que ‘‘Fragmentos...’’ não se enquadra na história individual de cada um, mas em situações. ‘‘Esse é o meu jeito de contar esse tempo’’. Já Donizeti Buganza observa sobre a montagem que não é uma reflexão saudosista. ‘‘Partimos do micro para o macro’’, destaca.
O cenário de ‘‘Fragmentos...’’ se resume ao básico de um bar, um balcão, considerado um espaço mítico, uma espécie de ‘‘div㒒 desprovido de informalidade, quando todos têm a oportunidade de atuar como psicanalista.
Serviço:
‘‘Fragmentos Sobre o Tempo Perdido Antes Que Abra o Bar’’, direção e concepção de Maria Helena Carvalho. De hoje a domingo, e de 8 a 10 de março, às 21 horas. Cenografia de Maria Helena Carvalho com execução de Wagner Donadio de Souza. Com Donizeti Buganza, Lea Albuquerque, Ceres Vittori, Wagner Donadio de Souza, Thais D’Abronzio e Maurício Werner. Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Ingressos a R$ 6,00. (R$ 3,00 para 3ª idade e estudantes).

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