Cinco momentos de Bergman
ReproduçãoPersona (1966): obra-prima de Bergman que, através do
personagem central, discute a função da arte e o papel do artistaA Continental Home Vídeo está lançando uma coleção com cinco preciosidades do mestre sueco Ingmar Bergman. Os colecionadores da Sétima Arte ou fãs do cineasta poderão adquirir a coleção completa (R$ 120,00) ou fita avulsa (preço ainda não definido) no MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo a partir de amanhã.
A coleção é formada por Monika e o Desejo, O Rosto, O Olho do Diabo, Persona e A Hora do Lobo. Dois são obras-primas absolutas:
Persona e A Hora do Lobo, mas há uma curiosidade toda especial cercando O Olho do Diabo, um dos filmes de Bergman que ainda estavam inéditos nos cinemas brasileiros.
O Olho do Diabo é de 1960. Baseia-se numa peça de Olof Bang, O Retorno de Don Juan. Não era um filme que Bergman, a princípio, quisesse fazer. Ele conta que propôs à empresa Svenkfilminidustri a realização de uma comédia em troca de um projeto mais pessoal. A aproximação do mito de D. Juan - no filme, ele seduz uma virgem - é pretexto para que Bergman desenvolva um de seus temas preferidos - a tentação do mal.
O problema, segundo Bergman, é que a peça era particularmente medíocre. Resultou um filme desconexo, que Bergman considera fraco, ao menos na forma. O cineasta não quer dizer com isso que tenha vergonha de o ter realizado, mas é o primeiro a admitir que se trata do resultado de uma série de erros e mal-entendidos.
Erotismo Cronologicamente, o filme mais antigo da série é Monika e o Desejo, de 1952. Nos seus tempos de crítico, Jean-Luc Godard idolatrava esse filme, considerando-o o melhor de Bergman. É a história de um casal de jovens que passa o verão numa praia. Entregam-se a jogos de amor e sexo. Voltam à cidade, tentam integrar-se à sociedade burguesa, mas a união fracassa.
A produção seduz pelo naturalismo do relato e das interpretações. No livro com a entrevista que concedeu aos críticos Stig Bjorkman, Torsten Manns e Jonas Sima (O Cinema Segundo Bergman, Editora Paz e Terra), o cineasta diz que fez o filme por amor a Harriet Anderson, que faz Monika. Em toda a história do cinema sueco, afirma Bergman, nunca houve uma mulher com o charme erótico e selvagem de Harriet. Anos mais tarde, ela surpreenderia numa criação completamente diversa, fazendo a moribunda de Gritos e Sussurros.
Fechando a coleção, a complexidade temática e estrutural de O Rosto (1958) e Persona, que sai em vídeo com o título original - no Brasil, foi lançado como Quando Duas Mulheres Pecam (1966). Não por acaso, os dois últimos têm personagens que pertencem à mesma família - Emanuel Vogler em O Rosto e Elizabeth Vogler em Persona.
Emanuel, artista de um pequeno circo ambulante - interpretado por Max Von Sydow -, recusa-se a falar mesmo depois de ser examinado por um médico que não vê motivos para a sua mudez. A situação repete-se com Elizabeth (Liv Ullman), outra artista, atriz de teatro, que é hospitalizada e se mantém muda, apesar de, na opinião da médica, ser uma pessoa perfeitamente sã, de corpo e espírito. Bergman usa os dois personagens para discutir a função da arte e o papel do artista. A história de O Rosto é uma sequência de humilhações. Elas voltarão em Persona e A Hora do Lobo (1966), até porque Bergman acredita que humilhar e ser humilhado são dois sentimentos que formam parte ativa do sistema social.
Metalinguagem Elizabeth é um claro prosseguimento do personagem de O Rosto e o que os dois filmes, a despeito de todas as suas diferenças, mostram é que o silêncio dos Voglers é uma desesperada forma de defesa contra o absurdo e a humilhação do cotidiano. O Bergman de Persona difere do de O Rosto por assumir a metalinguagem.
O filme trata de duas mulheres que confundem suas identidades (Elizabeth e a enfermeira Alma, Bibi Anderson) para que o cineasta possa ir à essência do cinema, criticando-o como linguagem. Partido que se repete em A Hora do Lobo, quando Bergman novamente fala sobre um artista - o pintor Johan (Max Von Sydow), que abandonou a mulher (Liv Ullman) - para propor ao espectador nova conversa sobre a angústia do processo de criação.
São filmes densos e difíceis, que tentam decifrar o desconhecido dentro do homem. Ultrapassam o racionalismo psicológico para revelar o que está além da religião e da ciência.





