A Folha entrevistou por e-mail internautas que exercitam a crítica
pelo prazer de ver suas opiniões na Internet
A Folha entrevistou, por e-mail, internautas habituados ao exercício da crítica informal dos sites da Amazon e Internet Movie Data Base (www.imdb.com). Poucos quiseram falar sobre o assunto e nenhum revelou seu nome, apenas o apelido (nickname). ‘‘Me sinto à vontade escrevendo sobre os filmes que gosto ou não gosto e tenho certeza de estar ajudando os outros a verem filmes bons’’, diz KS, de Nova York, que conta com cerca de uma dezena de resenhas no IMDB. ‘‘Sempre escrevi sobre os livros que lia. Agora achei um lugar onde publicar. Sei que não vou ganhar nada com isso, mas eu gosto’’, justifica Mindy, ‘‘crítica’’ da livraria virtual Amazon. ‘‘Clio’’, que frequenta grupos de discussão sobre livros e filmes em vários sites, diz que a troca de idéias estimula os leitores. ‘‘Às vezes a discussão sobre um filme ou livro descamba para o passional mesmo. Xingamentos são frequentes. É difícil achar alguém tolerante para escutar comentários não favoráveis àquilo de que ela gostou tanto. Por outro lado, também é difícil encontrar pessoas que saibam argumentar. É tudo muito na base do gostei/não gostei’’, afirma.
Quando Andy Warhol disse aquela baboseira de ‘‘no futuro, todos terão quinze minutos de fama’’, acreditamos, bestializados. Com o surgimento da Internet, os oportunistas de sempre aproveitaram-se da nova mídia para proclamar a verdade suprema do guru da pop arte. O fenômeno dos críticos virtuais, porém, prova que Warhol passou perto no absurdo de sua fala. Todos têm, na Internet, a chance de se fazerem donos de uma verdade muito particular, nem sempre bem exposta, é claro, mas que evidencia com muita honestidade o caráter deste ser que, de uma hora para outra, passou a ter cara e nome: o consumidor. Nas poucas linhas que lhes são permitidas, estes críticos anônimos estão convictos de que são agentes na escolha de futuros clientes de empresas que sequer lhes conhecem a cara. Ao verem seus nomes e suas opiniões numa tela de computador, atingem o apogeu de sua existência. Um nome e cinco linhas. Bem menos, pois, do que os quinze minutos previstos por Warhol. (P.P.J.)

mockup