São Paulo, 28 (AE) - "Pigmento, mesa em forma de caixa metálica, foi escolhida para o Fifty Best Tables", livro editado por Mel Byars, do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). O nome do objeto faz referência ao centro do trabalho dos designers Luciana Martins e Gerson de Oliveira: o pigmento azul que o espectador vê através do tampo de vidro, elemento que incitou a curadora Maria Alice Milliet a montar a exposição "Azul", que abre hoje no Galpão do Design.
A mostra conta com o trabalho de cinco designers que utilizam linguagens diferentes, mas que, na avaliação da curadora, em comum, se apresentam no limite entre a funcionalidade e a arte. Maria Alice exemplifica esse perfil do pequeno recorte com a criação de Luciana e Oliveira que, além da mesa "Pigmento", mostram uma série de luminárias, empilhadas, formando uma parede de luzes de onde desaba um emaranhado de fios (aqueles que ligam as lâmpadas às tomadas). "Se cada uma das luminárias apresenta sua função utilitária, juntas elas compõem uma instalação de uma poética que independe da funcionalidade", observa ela.
Da mesma forma, as garrafas de Adriana Terpins estão mais para uma referência à pintura de Morandi do que para objetos de enfeite ou uso doméstico. Os azuis dessa família (título da série em cerâmica) não são esmaltados, o que confere às cores um tratamento discreto, silencioso, com aspecto de antigo ou, como escreve a curadora, um azul que parece vir da pátina.
Maria Alice garante não ter tido problemas na seleção dos artistas. Por mais amplo que possa ser o tema, o azul, a curadora afirma que a utilização da cor anda tímida entre os designers. Como uma espécie de herança do modernismo, da origem do design brasileiro e da influência da Bauhaus, explica ela, a evidência das qualidades dos materiais - o brilho puro do metal, a textura pura da madeira e assim por diante - afastam a utilização das cores.
O que ela identificou nas criações de "Azul" foi o fato de a cor ser utilizada também como um elemento puro, como material de qualidades específicas e não como uma maquiagem. "Quer coisa mais pura do que a mesa onde o centro é o próprio pigmento do azul?"
Qualidades como a introspecção e a reflexão (atribuídas à cor desde as mais antigas religiões às recentes vertentes da cromoterapia) estão representadas também pela fotografia (em impressão íris) e pela tapeçaria (tufting). Renata Padovam captou os azuis do processo de degelo de montanhas da Noruega com uma máquina fotográfica. Os diferentes tons de azul do fenômeno foram impressos, em seguida, sobre papel de algodão de alta gramatura. Paulo Segall, por sua vez, criou seus geometrismos em tapete de náilon semimanual tingido por diferentes matizes de azul, claro.