Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha2
O Canal Brasil exibe, a partir de quinta-feira, uma retrospectiva com quatro longas-metragens de Roberto Farias. Cineasta vai completar 50 anos de carreira
Na sequência da retrospectiva de toda a sua obra como diretor exibida durante a edição 99 do Festival Rio (encerrada na última quinta-feira) e que valeu como comemoração antecipada dos seus 50 anos de cinema (a serem completados no ano 2000), o cineasta Roberto Farias ganha neste mês de outubro homenagem do Canal Brasil, da Net, que programou um minifestival com quatro de seus longas, realizados entre 1957 e 1964. Os filmes serão apresentados a partir do próximo dia 6, sempre às quartas-feiras, às 23 horas. Confira os títulos:
- ‘‘Rico Ri à Toa’’ (1957). Chanchada estrelada por Zé Trindade, marca a estréia de Farias na direção. Dia 6.
-‘‘Um Candango na Belacap’’ (1960). Outra chanchada, esta com Ankito, Grande Otelo e Marina Marcel nos principais papéis. Rodada em Brasília, na época de sua inauguração (que aconteceu oficialmente no dia 21 de abril daquele ano), foi uma produção oportunista. O próprio Farias não gosta do filme e diz que o realizou apenas como uma forma de sobrevivência profissional. Não obstante, tem hoje um certo valor histórico, afinal foi o primeiro longa de ficção a ter como cenário a então nova capital do País. Dia 13.
- ‘‘Assalto ao Trem Pagador’’ (1962). Policial clássico baseado em fatos reais. Gangue liderada por Tião Medonho, um dos mais temíveis bandidos do Rio de Janeiro, realiza assalto ao trem de pagamento do Banco do Brasil. Um sucesso de crítica e de público. No elenco, Reginaldo Farias, Grande Otelo, Eliezer Gomes (excelente no papel de Tião Medonho), Jorge Dória, Ruth de Souza, Luiza Maranhão e Helena Ignez (que depois se tornaria musa do cinema underground). Dia 20.
-‘‘Selva Trágica’’ (1964). Drama de cunho social, com Reginaldo Farias, Maurício do Valle e Jofre Soares nos principais papéis. No início do século, companhia que explora a erva-mate escraviza os trabalhadores. Estes se revoltam e alguns tentam fugir. Os que são capturados sofrem castigos brutais. Como o trabalho escravo ainda é uma realidade em nosso país, o filme mantém a sua atualidade. Dia 27.
Além destes quatro longas, o Canal Brasil reprisa no dia 17, às 14h30, ‘‘Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora’’ (1977), o terceiro filme do cantor dirigido por Farias. Desta vez, RC é um mecânico de carros de corrida que ambiciona tornar-se piloto. Sua chance surge quando substitui um corredor traumatizado em acidente. Também no elenco: Erasmo Carlos, Raul Cortez, Libânia Almeida e Otelo Zeloni. Roteiro de Bráulio Pedroso, autor da novela ‘‘Beto Rockfeller’’.
Irmão do ator e diretor Reginaldo Farias e pai dos também cineastas Maurício e Lui Farias, Roberto nasceu em Friburgo/RJ em 1932. Desde bebê, frequentava as salas de cinema, no colo da mãe. Aos três anos e meio, fugiu de casa para assistir a um filme. Passou toda a infância e a adolescência vendo filmes de Tarzan, ‘‘bangue-bangues’’ estrelados por Roy Rogers, policiais ‘‘B’’ e musicais da Metro.
Iniciou sua carreira cinematográfica em 1950, na Atlântida, onde foi assistente de Watson Macedo e de outros veteranos diretores de chanchadas. Em 1957, dirigiu o primeiro dos seus 14 longas. Além dos já mencionados, realizou ‘‘No Mundo da Lua’’ (chanchada de 1958), ‘‘Cidade Ameaçada’’ (1959) – seu primeiro filme ‘‘sério’’, que, inclusive, representou o Brasil em Cannes –, ‘‘Toda Donzela Tem um Pai que É uma Fera’’ (1966) – adaptação da peça teatral homônima, é talvez a melhor pornochanchada da década de 60 (e uma das poucas que merecem ser vistas uma segunda vez) –, ‘‘Roberto Carlos em Ritmo de Aventura’’ (1967), ‘‘Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa’’ (1968), ‘‘O Fabuloso Fittipaldi’’ (1973), ‘‘Pra Frente Brasil’’ (1983) – realizado na época da ‘‘abertura’’ política, o filme, que denunciava a repressão paramilitar durante o governo Médici, foi censurado e depois liberado com cortes –, ‘‘Acelere, Ayrton’’ (1986) – documentário para a televisão sobre a carreira do piloto Ayrton Senna – e ‘‘Os Trapalhões no Auto da Compadecida’’ (1987) – primeira adaptação cinematográfica de ‘‘O Auto da Compadecida’’, de Ariano Suassuna.
Podem os cinéfilos mais elitistas torcer o nariz para a maior parte dos filmes que Roberto Farias assinou como diretor ou produtor (entre eles, ‘‘Barra Pesada’’ e ‘‘Os Paqueras’’, dirigidos pelo irmão Reginaldo), mas não poderão negar a versatilidade e a competência do cineasta, que, com a mesma segurança, dirigiu chanchadas, drama, policial, suspense político, pornochanchada, documentários e filmes de aventura. Vistos sem preconceitos, os filmes estrelados por Roberto Carlos (‘‘... em Ritmo de Aventura’’, ‘‘ ... o Diamante Cor-de-Rosa’’, ‘‘... a 300 Quilômetros por Hora’’) revelam-se eficientes e de qualidade acima da média e ‘‘... no Auto da Compadecida’’, além de ser um dos raros filmes dos Trapalhões dotado de algum valor artístico, é uma adaptação, no mínimo, digna da peça de Suassuna.
Roberto Farias, evidentemente, é um diretor voltado ao cinema comercial, popular. O que muita gente esquece é que um filme não é necessariamente ruim só porque dá resultado nas bilheterias – afinal, é essa a base de toda a indústria cinematográfica que faz jus ao seu nome. Quando assistimos a um clássico norte-americano ou europeu, não colocamos nenhuma objeção ao fato de ele ter sido também sucesso de público.
Uma nota irônica: Roberto Farias, que, na época em que dirigiu a Embrafilme (1974-1978), colaborou para que o cinema nacional se transformasse num empreendimento rentável, ocupando mais de um terço do mercado, não consegue, hoje em dia, captar os recursos necessários para a realização de um longa (‘‘O Hóspede Americano’’, sobre o encontro entre o Marechal Rondon e o presidente Roosevelt) que marcaria o seu retorno ao cinema após 12 anos de ausência.

mockup