Uma obra inusitada, com fezes e flores, está em exposição no Museu de Arte Moderna do Rio (MAM). O trabalho integra a retrospectiva de um dos mais conceituados artistas brasileiros no exterior, Cildo Meireles, 52.
A instalação, batizada de ‘‘Ku Kka Ka Kka’’, consiste em duas estufas. Em uma, há flores naturais e fezes artificiais. Na outra, flores artificiais e fezes de verdade.
Uma das ‘‘inspirações’’ de Cildo Meireles foi o livro ‘‘Histoire de la Merde’’, da francesa Dominique-Gilbert Laporte, recebido de presente de sua mulher, Cathérine.
‘‘Nesse livro, a autora descreve vários casos de artistas que abordaram o tema. Desde Goethe (1749-1832) até Piero Manzoni (1933-1963). O próprio João Cabral de Melo Neto tem um poema, chamado ‘‘Anti-Ode’, que fala sobre merda e flor, no qual ele dissocia a palavra, que é bonita, da substância’’, diz Cildo Meireles.
Para o artista, ‘‘Ku Kka Ka Kka’’ é um trabalho sobre a aparência. ‘‘O que o espectador vê não é, de fato, o que ele pensa que 钒, diz. A instalação usa 112 vasos com rosas (falsas e verdadeiras) e 112 urinóis com fezes de mentira (feitas de papel machê) e de verdade.
De onde vem o ‘‘material’’? Cildo afirma que conseguiu algumas latas da série ‘‘Merde d’Artiste’’, feitas na década de 60 por Piero Manzoni. Na época, Manzoni produziu 90 latas com as próprias fezes. No rótulo vinha escrito: ‘‘Sem conservantes’’.
‘‘Manzoni pedia licença para os amigos e falava que ia ao banheiro ‘‘fazer arte’’’, diverte-se Cildo, afirmando que a manutenção de ‘‘Ku Kka Ka Kka’’ vai ser mais complicada por causa das flores. ‘‘Elas são muito mais frágeis’’, diz.
O nome da instalação é sugestão da curadora finlandesa Maaretta Jaukkuri, que atentou para o fato de as primeiras palavras pronunciadas pelos bebês finlandeses serem Ku Kka (flor) e Ka Kka (cocô). ‘‘Foi uma coincidência que acabou servindo para homenagear a Finlândia’’, conta Cildo.
A obra foi encomendada pelo Kiasma Museum of Contemporary Art, de Helsinque, que exibiu e adquiriu a primeira versão da instalação no ano passado. Além de Helsinque, onde recebeu 120 mil visitantes - numa cidade que tem 500 mil habitantes-, ‘‘Ku Kka Ka Kka’’ esteve na galeria Lelong, de Nova York, também em 99.
Há quatro anos, Cildo se preparava para montar o trabalho no Museu Reina Sofia, de Madri. Um mês antes, recebeu um fax, informando que a instalação não participaria. Na atual retrospectiva, iniciada no New Museum of Contemporary Art, de Nova York, ‘‘Ku Kka Ka Kka’’ também foi evitada para que a peça não inviabilizasse toda a mostra.