'Cildo', filme mostra obra e gênio contestadores do artista
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terça-feira, 06 de janeiro de 2009
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Ele é o oposto do que se imagina um artista internacionalmente consagrado. Detesta circular entre socialites, não gosta de aparecer na mídia e mantém distância do circuito de galerias. No entanto, é hoje o nome mais discutido entre críticos e curadores internacionais, após receber no ano passado dois importantes prêmios - o Velázquez, concedido pelo Ministério da Cultura da Espanha, e o Ordway Prize, do New Museum de Nova York - e inaugurar sua grande retrospectiva no templo maior da arte contemporânea mundial, a Tate Modern de Londres. Como se não bastasse, Cildo Meireles encerra a mostra inglesa, esta semana, com a estréia na sexta-feira, de um documentário de longa-metragem sobre sua obra, ''Cildo'', dirigido pelo cineasta Gustavo Moura e produzido pela Matizar Filmes dentro da série Retratos Contemporâneos da Arte.
O cineasta Gustavo Moura levou quatro anos para concluir o documentário, que só ficou pronto após a abertura da mostra da Tate. A razão é a de sempre: falta de dinheiro. Felizmente, quando a retrospectiva londrina se abriu, em outubro do ano passado, o financiamento saiu e Moura conseguiu registrar a mostra e a reação dos espectadores ingleses. Eles deixaram de lado a habitual discrição e paravam Cildo Meireles na rua para felicitá-lo pela mostra, como comprovam as imagens do documentário.
O filme de Moura, de certa maneira, completa outro documentário que o cineasta inglês Gerald Fox realizou sobre o pioneiro da instalação no Brasil e foi exibido na abertura da mostra em outubro passado. Em seu longa, Moura mostra o artista em seu ateliê de Botafogo, quando volta ao passado para contar o quanto fatos marcantes da sua vida influenciaram seus trabalhos mais desafiadores.
Entre essas instalações, a peça-chave da obra do artista talvez seja mesmo ''Missão/Missões'' (''Como Construir Catedrais''), de 1987, comentário provocativo sobre as sete missões fundadas pelos jesuítas no Sul do Brasil, Paraguai e Argentina, entre 1610 e 1767. Nessa obra, 600 mil moedas são ligadas a 2 mil ossos por uma coluna de hóstias que desmonta o estado teocrático com demolidora ironia.
De todos os episódios da vida pessoal de Cildo contados no filme, esse é mesmo o mais comovente. A origem dessa instalação monumental, montada em diversos países, da Suíça aos EUA, remonta à infância do artista. Mais exatamente, à indignação do pai de Cildo, encarregado de investigar o genocídio dos índios craós, episódio comentado posteriormente numa instalação (''Sal sem Carne'', 1975). A obra, que contrapõe a fala de um índio à celebração de uma missa, condena a expropriação do território indígena e, mais que isso, denuncia o massacre promovido por fazendeiros nos anos 1940. De um avião eles jogaram sobre a aldeia indígena roupas contaminadas com vírus da gripe e bacilos da tuberculose.
Cildo, que cresceu sob o impacto da arte conceitual na época da ditadura, nunca mostrou pudor em deixar que a política contagiasse sua obra artística, embora sempre tenha demonstrado aversão ao panfletarismo. O filme de Moura traz flashes de outros documentários realizados sobre o artista (pelo falecido crítico Wilson Coutinho, entre eles) que revelam como a questão política sempre foi tratada em nível elevado de criação e investigação, afrontando as autoridades com obras subversivas como ''Inserções em Circuito Ideológico: Projeto Coca-Cola'' (1970). A obra consistia em escrever sobre garrafas do refrigerante mensagens de protesto contra o imperialismo e devolvê-las ao mercado para confundir os consumidores.
Esse espírito dadaísta esteve presente em várias obras do artista nos anos 1960 e 1970. Já os trabalhos mais recentes provocam o espectador de outra forma, convidando-o a explorar espaços físicos e políticos com o próprio corpo.
Assim como os povos indígenas foram afetados pelo tacão do colonizador, a família de Meireles também sofreu com a exoneração do pai e a transferência para Brasília por conta das denúncias do genocídio indígena. De qualquer forma, a capital federal foi importante para sua formação. Foi nela que viu um dia a miniatura de uma casa, construída com gravetos por um morador de rua, matriz da fatura de suas instalações.


