Cientista não levou boas lembranças do Brasil
São Paulo, 10 (AE) - Charles Darwin não levou saudades do Brasil, em sua viagem ao Rio de Janeiro e a Bahia, em 1832. Ao menos, do povo brasileiro - o cientista conheceu o carnaval baiano e participou de uma festa junina no interior fluminense, entre outras atividades, mas repudiou as atitudes do habitantes, criticando-as muitas vezes como "bárbaras". Em compensação, o naturalista maravilhou-se com a natureza do País.
Darwin zarpou da Inglaterra, à bordo do Beagle, em 1831, quando estava com 22 anos e tinha até então feito esporádicas expedições pelo campo inglês. Retornou depois de cinco anos, período em que contornou as costas do Atlântico e Pacífico da América do Sul, circundou a Austrália, cruzou o Oceano Índico, passou pelas Ilhas Maurício, cruzou o Cabo da Boa Esperança, até fazer uma última escala na Bahia e Pernambuco antes de voltar à Inglaterra.
Na bagagem, levou exemplares de diversas espécies animais e vegetais e a certeza de que se transformara em um profissional rematado, passando pelo batismo da experiência. Darwin maravilhou-se com a exuberância da mata atlântica, mas não aceitou a conduta do povo brasileiro. O cientista aportou na Bahia em pleno carnaval e logo foi obrigado a participar de uma das principais folias: ser alvo de baciadas dágua. Espantou-se também ao assistir a um desfile de escravos negros pintados de branco.
"É muito difícil manter a dignidade andando pelas ruas", escreveu em seu diário. Em seguida, viajou pelo Rio de Janeiro, onde voltou a fazer anotações sobre a falta de educação dos moradores: "Os proprietários de vendas têm modos indelicados; suas casas são frequentemente imundas e a falta de garfos, facas e colheres é comum". Darwin espantou-se também com a habilidade, especialmente de crianças, em manejar facas com destreza. Essa seria provavelmente, segundo ele, uma explicação para a violência nas cidades. Confusão - A segunda passagem pelo Brasil, quando fez uma escala em Salvador e no Recife antes de voltar à Inglaterra, foi mais desastrosa. Na capital pernambucana, Darwin foi confundido com um famoso cangaceiro da época, o Cabeleira, segundo pesquisas do sociólogo Gilberto Freire sobre o Recife. Mesmo morto fazia 60 anos, o bandido espalhara um terror pela região que ainda permanecia.
Feio e com cabelos e barbas compridos, Darwin evocava a imagem do cangaceiro, o que lhe trazia a porta batida na cara. "Fui recusado em duas casas diferentes de maneira assaz enfezada e, somente com muita dificuldade, permitiram-me, em uma terceira, que atravessasse a horta, a fim de de ganhar acesso a uma colina, a que desejava subir para poder examinar, do alto, a região", anotou em seu diário.
Humanista ferrenho, o jovem cientista escandalizou-se também com a escravidão disseminada de negros, na sociedade brasileira. Causavam-lhe horror os gritos que escutava vindo das casas, ao passear pelas ruas. "Ouvi os mais angustiantes gemidos e não tinha nenhuma dúvida de que algum miserável escravo estava sendo torturado e sentia-me tão impotente como uma criança, até mesmo para dar demonstrações", anotou.
Apesar de se deliciar com o ar, deliciosamente fresco e leve, de comparar o cenário brasileiro "a uma visão das Mil e Uma Noites" e de afirmar que "a pessoa deseja ardentemente viver em retiro neste novo e grande mundo, Charles Darwin nunca mais voltou ao Brasil. (U.B.)





