CIÊNCIA E ÉTICA EM DISCUSSÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de março de 2001
Simone Mattos Enviada a São Paulo 
Dinamarca, 1941. Neste cenário, em plena 2ª Guerra Mundial, dois renomados cientistas, Niels Bohr e Werner Heisenberg, discutem sobre a construção da bomba atômica. Apesar do complexo tema, o espetáculo Copenhagen, que fará a sua estréia nacional no 10º Festival de Teatro de Curitiba, não irá abordar apenas física quântica. O premiado texto do inglês Michael Frayn, escrito há três anos, extrapola os limites da ciência e trata das mais profundas questões humanas.
Premiado na França com o MoliSre e nos Estados Unidos com o Tony, montado em várias cidades européias, o texto estará pela primeira vez no Brasil. Os papéis principais são dos atores Oswaldo Mendes e Carlos Palma, vencedor do Prêmio Mambembe de Melhor Ator pelo espetáculo Einstein, em 1998. A direção é do paulistano Marco Antônio Rodrigues, 45 anos, 25 deles dedicados ao teatro.
O longo e denso texto Copenhagen desafia qualquer diretor. Não há nenhuma marcação ou indicação de palco, permitindo a livre interpretação de cada companhia. Para garantir o sucesso da estréia, a trupe paulista ensaia diariamente, desde novembro, no Teatro Ruth Escobar, no bairro paulista da Bela Vista. Um destes ensaios foi acompanhado de perto pela reportagem da Folha 2, que entrevistou o diretor e o ator da trupe com exclusividade:
Por que vocês escolheram o texto Copenhagen?
Marco Antônio Rodrigues O Carlos Palma e a Adriana Caruí, que são os produtores do espetáculo, têm um projeto chamado Arte e Ciência no Palco, com o qual já montaram Einstein e o infantil Da Vinci Pintando o Sete. Isso trouxe uma aproximação deles com cientistas e pessoas da área de física que acabaram indicando o texto Copenhagen. Os dois se interessaram porque trata de ciência e ética, que é uma questão muito próxima da arte. Então, eles compraram os direitos do texto para o Brasil, me convidaram para dirigir o espetáculo e, a partir daí, montamos o elenco.
De que se trata o projeto Arte e Ciência no Palco?
Carlos Palma Os professores tratam a ciência apenas com a razão, com o cognitivo, o que gera uma grande dificuldade de aprendizado. No teatro, onde a emoção e a paixão são fundamentais em qualquer espetáculo, a gente acaba trazendo estes ingredientes também para a ciência... Até a física acaba se tornando fácil de entender quando é tratada com paixão.
O fato do texto ser premiadíssimo influenciou no processo de escolha?
Oswaldo Mendes Copenhagen está há três anos em cartaz em Londres, é sucesso na Broadway e ganhou vários prêmios pelo mundo, mas não foi escolhido por isso. Quando o Palma já havia comprado os direitos da peça para o Brasil é que vieram os prêmios e a consagração. Hoje, ela é uma das peças mais faladas no mundo todo. Está sendo montada na Alemanha e em vários outros lugares da Europa ao mesmo tempo...
Na atual crise cultural que o Brasil vive, de massificação pela mídia, como vocês tratam no palco um assunto tão específico como física quântica?
Rodrigues Eu acredito que as pessoas que estão reunidas neste projeto têm em comum uma característica em suas carreiras: todos entendem que o teatro tem um compromisso social muito grande e muito sério. São pessoas que não abdicam disto e que de forma alguma podem compactuar com este estado de coisas que alguns artistas criaram no País, deixando a arte relegada pura e simplesmente ao entretenimento da pior espécie, contribuindo para um emburrecimento e brutalização da arte e do teatro. Para nós, levar um espetáculo como Copenhagen significa simplesmente dar continuidade a algo que sempre fizemos... E temos muita felicidade por ter uma grande obra dramatúrgica nas mãos... Nós nunca fizemos teatro com o olho na bilheteria, mas sim para nos satisfazer, por vocação, pelo compromisso social de devolver algo positivo para a sociedade.
Qual é essa função social de Copenhagen?
Rodrigues O espetáculo é uma forma de denunciarmos todo este estado de coisas que está por aí... A gente aposta na inteligência da platéia brasileira. Achamos que este paradigma de imbecilização que se criou nos obriga a criar outros paradigmas em paralelo. E há um público qualitativo e não quantitativo para este paralelo. Hoje temos um movimento de teatro muito forte que vai contra essa maré de barbárie e estupidez.
Existe a expectativa de que se Copenhagen for bem aceito em Curitiba dará certo em todo o Brasil?
Rodrigues Eu posso dar um exemplo pessoal: no ano passado fiz a estréia de Happy End no festival de Curitiba e o espetáculo não foi bem. No entanto, fez uma carreira de um ano pelo Brasil, foi indicado para vários prêmios, participou de outros festivais, foi recomendado pela crítica e teve uma grande parcela de público. Eu acho que Curitiba é uma vitrine importante, mas da mesma forma que outros festivais são importantes.
Nenhum diferencial no festival de Curitiba?
Rodrigues Curitiba é importante do ponto de vista de que é um circuito que alimenta de fato O Teatro, aquilo que a gente realmente entende como teatro e não o famoso caça-níqueis.
Mendes Acho que a importância do festival de Curitiba é ser um evento feito para a gente de teatro. Tem um aspecto público, do povo, da crítica, mas na verdade ele é mesmo feito para as pessoas do teatro. É uma oportunidade de reencontrar profissionais de todo o País... Então é sempre muito bom estrear ou se apresentar lá.
O texto original Copenhagen não tem nenhuma rubrica ou indicação. Isto dificulta o processo de direção?
Rodrigues O trabalho de encenação foi construído em conjunto pela equipe e não tem apenas a minha assinatura. Este texto coloca o homem no centro do universo, então não há nada mais adequado ao teatro do que colocar o ator no centro do palco. A base, a estrutura de tudo é o ator, portanto, tudo o que se construiu foi a partir do trabalho dos atores. A assinatura é coletiva.
Mendes Acho que o Marco está sendo modesto, o papel dele foi fundamental na definição de caminhos, no destrinchar deste texto tão complexo... Como o texto não tem as tradicionais indicações de entra, sai ou ri, depende muito da visão do diretor...
Qual a diferença entre interpretar um personagem fictício ou um real com o peso de um Niels Bohr ou de Werner Heisenberg?
Mendes Estes são personagens que existiram, então há livros e depoimentos sobre eles... É a mesma coisa que eu tentar interpretar você... É mais difícil porque se tem uma referência muito forte da história pessoal destes personagens. As indicações, que na ficção somos nós que construímos, neste caso já estão prontas. Cabe a nós incorporá-las e dar a nossa contribuição, mas no resultado final não será o Bohr que estará ali no palco. O César Lattes (cientista, morador de Curitiba) está vivo, conheceu Bohr pessoalmente, foi aluno dele e disse que irá assistir ao nosso espetáculo... Eu não tenho a menor ilusão de que ele vai sair do teatro dizendo que reviu o Bohr. Não, ele verá um ator interpretando Niels Bohr. E isso é bem diferente.
E o Heisenberg?
Palma Todo mundo conhece Heisenberg.... (risos). Ele é um personagem que provoca uma interessante discussão sobre a responsabilidade científica. Isso fica bem claro em seu livro A Parte do Todo, que discute qual o papel do cientista na sociedade. Acho que não é apenas o papel de um curioso, vai além disto, esbarra muito na ética... Pelo fato de Heisenberg ter sido alemão, estar numa guerra e defender o seu País como pátria no meio de um fogo cruzado entre um maluco chamado Hitler e a humanidade toda, ele teve a oportunidade de refletir muito sobre esta questão de cidadania. E ela extrapola os limites da ciência, é um tema sempre atual e que ecoa por todo o espetáculo Copenhagen. O Heisenberg foi alguém que teve a coragem de colocar o dedo numa ferida no meio daquele barril de pólvora. Ele foi um homem que acabou sendo perseguido e preso por causa disto, mas que permitiu esta discussão. O espetáculo trata não apenas de questões científicas, mas principalmente de questões humanas.
Onde a física quântica se encontra com as questões humanas?
Mendes A questão da física nuclear é apenas um ponto de partida que o autor toma para refletir sobre a nossa responsabilidade como seres humanos, sobre o que estamos fazendo aqui. Neste caso, o teatro utiliza a física quântica para discutir o homem e a sua ética... E o teatro só existe porque ele continua discutindo o homem. No momento em que ele não fizer mais isto, daí se transforma em puro entretenimento, em popozudas, tigrões ou estas imbecilidades que estão por aí. Se não discutir o homem não será mais teatro...


