Dinamarca, 1941. Neste cenário, em plena 2ª Guerra Mundial, dois renomados cientistas, Niels Bohr e Werner Heisenberg, discutem sobre a construção da bomba atômica. Apesar do complexo tema, o espetáculo ‘‘Copenhagen’’, que fará a sua estréia nacional no 10º Festival de Teatro de Curitiba, não irá abordar apenas física quântica. O premiado texto do inglês Michael Frayn, escrito há três anos, extrapola os limites da ciência e trata das mais profundas questões humanas.
Premiado na França com o MoliSre e nos Estados Unidos com o Tony, montado em várias cidades européias, o texto estará pela primeira vez no Brasil. Os papéis principais são dos atores Oswaldo Mendes e Carlos Palma, vencedor do Prêmio Mambembe de Melhor Ator pelo espetáculo ‘‘Einstein’’, em 1998. A direção é do paulistano Marco Antônio Rodrigues, 45 anos, 25 deles dedicados ao teatro.
O longo e denso texto ‘‘Copenhagen’’ desafia qualquer diretor. Não há nenhuma marcação ou indicação de palco, permitindo a livre interpretação de cada companhia. Para garantir o sucesso da estréia, a trupe paulista ensaia diariamente, desde novembro, no Teatro Ruth Escobar, no bairro paulista da Bela Vista. Um destes ensaios foi acompanhado de perto pela reportagem da Folha 2, que entrevistou o diretor e o ator da trupe com exclusividade:
Por que vocês escolheram o texto ‘‘Copenhagen’’?
Marco Antônio Rodrigues – O Carlos Palma e a Adriana Caruí, que são os produtores do espetáculo, têm um projeto chamado ‘‘Arte e Ciência no Palco’’, com o qual já montaram ‘‘Einstein’’ e o infantil ‘‘Da Vinci Pintando o Sete’’. Isso trouxe uma aproximação deles com cientistas e pessoas da área de física que acabaram indicando o texto ‘‘Copenhagen’’. Os dois se interessaram porque trata de ciência e ética, que é uma questão muito próxima da arte. Então, eles compraram os direitos do texto para o Brasil, me convidaram para dirigir o espetáculo e, a partir daí, montamos o elenco.
De que se trata o projeto ‘‘Arte e Ciência no Palco’’?
Carlos Palma – Os professores tratam a ciência apenas com a razão, com o cognitivo, o que gera uma grande dificuldade de aprendizado. No teatro, onde a emoção e a paixão são fundamentais em qualquer espetáculo, a gente acaba trazendo estes ingredientes também para a ciência... Até a física acaba se tornando fácil de entender quando é tratada com paixão.
O fato do texto ser premiadíssimo influenciou no processo de escolha?
Oswaldo Mendes – ‘‘Copenhagen’’ está há três anos em cartaz em Londres, é sucesso na Broadway e ganhou vários prêmios pelo mundo, mas não foi escolhido por isso. Quando o Palma já havia comprado os direitos da peça para o Brasil é que vieram os prêmios e a consagração. Hoje, ela é uma das peças mais faladas no mundo todo. Está sendo montada na Alemanha e em vários outros lugares da Europa ao mesmo tempo...
Na atual crise cultural que o Brasil vive, de massificação pela mídia, como vocês tratam no palco um assunto tão específico como física quântica?
Rodrigues – Eu acredito que as pessoas que estão reunidas neste projeto têm em comum uma característica em suas carreiras: todos entendem que o teatro tem um compromisso social muito grande e muito sério. São pessoas que não abdicam disto e que de forma alguma podem compactuar com este estado de coisas que alguns artistas criaram no País, deixando a arte relegada pura e simplesmente ao entretenimento da pior espécie, contribuindo para um emburrecimento e brutalização da arte e do teatro. Para nós, levar um espetáculo como ‘‘Copenhagen’’ significa simplesmente dar continuidade a algo que sempre fizemos... E temos muita felicidade por ter uma grande obra dramatúrgica nas mãos... Nós nunca fizemos teatro com o olho na bilheteria, mas sim para nos satisfazer, por vocação, pelo compromisso social de devolver algo positivo para a sociedade.
Qual é essa função social de Copenhagen?
Rodrigues – O espetáculo é uma forma de denunciarmos todo este estado de coisas que está por aí... A gente aposta na inteligência da platéia brasileira. Achamos que este paradigma de imbecilização que se criou nos obriga a criar outros paradigmas em paralelo. E há um público qualitativo e não quantitativo para este paralelo. Hoje temos um movimento de teatro muito forte que vai contra essa maré de barbárie e estupidez.
Existe a expectativa de que se ‘‘Copenhagen’’ for bem aceito em Curitiba dará certo em todo o Brasil?
Rodrigues – Eu posso dar um exemplo pessoal: no ano passado fiz a estréia de ‘‘Happy End’’ no festival de Curitiba e o espetáculo não foi bem. No entanto, fez uma carreira de um ano pelo Brasil, foi indicado para vários prêmios, participou de outros festivais, foi recomendado pela crítica e teve uma grande parcela de público. Eu acho que Curitiba é uma vitrine importante, mas da mesma forma que outros festivais são importantes.
Nenhum diferencial no festival de Curitiba?
Rodrigues – Curitiba é importante do ponto de vista de que é um circuito que alimenta de fato O Teatro, aquilo que a gente realmente entende como teatro e não o famoso caça-níqueis.
Mendes – Acho que a importância do festival de Curitiba é ser um evento feito para a gente de teatro. Tem um aspecto público, do povo, da crítica, mas na verdade ele é mesmo feito para as pessoas do teatro. É uma oportunidade de reencontrar profissionais de todo o País... Então é sempre muito bom estrear ou se apresentar lá.
O texto original ‘‘Copenhagen’’ não tem nenhuma rubrica ou indicação. Isto dificulta o processo de direção?
Rodrigues – O trabalho de encenação foi construído em conjunto pela equipe e não tem apenas a minha assinatura. Este texto coloca o homem no centro do universo, então não há nada mais adequado ao teatro do que colocar o ator no centro do palco. A base, a estrutura de tudo é o ator, portanto, tudo o que se construiu foi a partir do trabalho dos atores. A assinatura é coletiva.
Mendes – Acho que o Marco está sendo modesto, o papel dele foi fundamental na definição de caminhos, no destrinchar deste texto tão complexo... Como o texto não tem as tradicionais indicações de ‘‘entra, sai ou ri’’, depende muito da visão do diretor...
Qual a diferença entre interpretar um personagem fictício ou um real com o peso de um Niels Bohr ou de Werner Heisenberg?
Mendes – Estes são personagens que existiram, então há livros e depoimentos sobre eles... É a mesma coisa que eu tentar interpretar você... É mais difícil porque se tem uma referência muito forte da história pessoal destes personagens. As indicações, que na ficção somos nós que construímos, neste caso já estão prontas. Cabe a nós incorporá-las e dar a nossa contribuição, mas no resultado final não será o Bohr que estará ali no palco. O César Lattes (cientista, morador de Curitiba) está vivo, conheceu Bohr pessoalmente, foi aluno dele e disse que irá assistir ao nosso espetáculo... Eu não tenho a menor ilusão de que ele vai sair do teatro dizendo que reviu o Bohr. Não, ele verá um ator interpretando Niels Bohr. E isso é bem diferente.
E o Heisenberg?
Palma – Todo mundo conhece Heisenberg.... (risos). Ele é um personagem que provoca uma interessante discussão sobre a responsabilidade científica. Isso fica bem claro em seu livro ‘‘A Parte do Todo’’, que discute qual o papel do cientista na sociedade. Acho que não é apenas o papel de um curioso, vai além disto, esbarra muito na ética... Pelo fato de Heisenberg ter sido alemão, estar numa guerra e defender o seu País como pátria no meio de um fogo cruzado entre um maluco chamado Hitler e a humanidade toda, ele teve a oportunidade de refletir muito sobre esta questão de cidadania. E ela extrapola os limites da ciência, é um tema sempre atual e que ecoa por todo o espetáculo ‘‘Copenhagen’’. O Heisenberg foi alguém que teve a coragem de colocar o dedo numa ferida no meio daquele barril de pólvora. Ele foi um homem que acabou sendo perseguido e preso por causa disto, mas que permitiu esta discussão. O espetáculo trata não apenas de questões científicas, mas principalmente de questões humanas.
Onde a física quântica se encontra com as questões humanas?
Mendes – A questão da física nuclear é apenas um ponto de partida que o autor toma para refletir sobre a nossa responsabilidade como seres humanos, sobre o que estamos fazendo aqui. Neste caso, o teatro utiliza a física quântica para discutir o homem e a sua ética... E o teatro só existe porque ele continua discutindo o homem. No momento em que ele não fizer mais isto, daí se transforma em puro entretenimento, em popozudas, tigrões ou estas imbecilidades que estão por aí. Se não discutir o homem não será mais teatro...

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