FILO CIDADE OCULTA O italiano Pino di Buduo está em Londrina preparando um evento que promete desvendar uma cidade escondida e ativar a identidade de seus habitantes Maurizio Cattaneo/DivulgaçãoO Canal de Klagenfurt, na Áustria, foi coberto com tecidos que escondiam elementos contrastantesMaurizio Cattaneo/DivulgaçãoAs cadeiras, que passam despercebidas pelas cantinas de Fara Sabina, na Itália, ganharam destaque Ranulfo Pedreiro De Londrina Há uma cidade escondida atrás de cada prédio, cada esquina, cada rua. Uma cidade esquecida na história e na memória das pessoas, constituída de fatos, elementos táteis, olfativos, orgânicos ou mitológicos que se infiltraram no cerne do concreto que substituiu a mata. A missão do italiano Pino di Buduo é trazer essa ‘‘cidade invisível’’ à tona, exibi-la para os habitantes e despertar-lhes a identidade. O projeto Cittá Invisible é inspirado no livro homônimo de Italo Calvino e faz parte dos Projetos de Maio do Festival Internacional de Londrina – Filo. Pino di Buduo é o diretor do grupo Potlach – de Fara Sabina, província de Rieti, na Itália – que desenvolve as atividades. Ele está na cidade fazendo um levantamento sociocultural, sob perspectiva antropológica, para que o evento se concretize. Pino di Buduo acredita que é mais fácil para um estrangeiro ‘‘enxergar’’ a ‘‘cidade oculta’’ do que seus cidadãos. Entorpecidos com o cotidiano, os habitantes passam quase despercebidos pelas transformações sofridas por um centro urbano. ‘‘Eu trabalho com artistas, arqueólogos, antropólogos, arquitetos e professores para fazer um levantamento artístico-cultural e histórico da cidade. Com esse material, começamos a trabalhar para as pessoas terem uma visão da cidade que não tinham antes’’, comenta o diretor. Um exemplo: em Klagenfurt, na Áustria, há um canal que faz parte do dia-a-dia de seus moradores. Para destacá-lo, o Cittá Invisible cobriu-o com tecidos brancos. As pessoas chegavam ao canal por uma ponte, acima dos lençóis, e viam um tapete branco onde antes havia água. Depois se dirigiam para baixo da estrutura e encontravam um rio diferente, com elementos contrastantes. O trabalho é grande e deve movimentar cerca de cem pessoas. Não se trata de uma obra com roteiro pré-concebido, as atividades são definidas de acordo com as características de cada lugar. ‘‘É interdisciplinar e envolve teatro, música, dança, arquitetura, técnicos, diretores e cenógrafos’’, ressalta Pino di Buduo. Todo o projeto deve se concentrar em um espaço amplo, onde serão espalhadas ‘‘ilhas’’, ou ‘‘cidades’’ – como prefere o italiano. Em cada ‘‘cidade’’ – serão mais de 50 – haverá um elemento representativo que busca ativar a memória do espectador. Pode ser uma instalação, um grupo de músicos ou uma dançarina. Essas ‘‘cidades’’ estarão espalhadas por todo o espaço. E, como em um centro urbano, o espectador vai passear por elas, traçando seu próprio trajeto e desenvolvendo uma ótica individual. O diretor esteve, com a equipe de produção do Filo, conhecendo lugares como o Lago Igapó e o Parque Arthur Thomas em Londrina. Pino di Buduo também se interessou pela história do município. ‘‘Podemos pensar em algo relacionado à memória da cidade, como a floresta, o desmatamento, o algodão, o café, animais, indústrias. É uma cidade muito jovem e a água é um elemento muito importante’’, acrescenta. Não há, portanto, um tratamento restrito à estética. A idéia de chacoalhar as raízes dos habitantes de um lugar incide num reflexo posterior: ‘‘Tudo isso permite a cidade invisível emergir e ser projetada como uma possibilidade futura, como a formação da arte é fundamental para o homem, porque é uma energia que atrai os homens e impõe a curiosidade.’’ A perspectiva parece vaga porque ainda é difícil delimitar o que exatamente o Cittá Invisible vai realizar em Londrina. O projeto está incipiente por aqui – ainda não há uma data definida para sua realização – mas já ganhou respaldo em diversos lugares do mundo, como em sua cidade natal, Fara Sabina. Também já esteve em Agropoli e Maranola, na Itália; Unterach, na Áustria; Liverpool, na Inglaterra; Newark, nos Estados Unidos, e no Rio de Janeiro, entre outros lugares. O trabalho tende a provocar reações que, segundo Pino, dificilmente serão esquecidas: ‘‘O lugar nunca mais será o mesmo, cada pessoa que visitou, ao regressar, verá que aquele espaço não é mais o mesmo. Ali elas viram possibilidades de relações, de utilização de espaço, de coesão para o futuro. Nós não vamos ver os trabalhos do ponto de vista estético, mas como afirmação de identidade e com isso se desenvolve um projeto artístico.’’ O diretor ficou impressionado, por exemplo, com a cascata do Parque Arthur Thomas, que ele conheceu em uma foto antiga, da época da colonização de Londrina. ‘‘Ela está lá, exatamente como na foto de 60 anos atrás. Há uma rua passando perto, mas o barulho da água é o mesmo há milhares de anos. O mato existiu antes do homem e acredito que existirá depois do homem’’, conclui. No calendário de atividades do Filo, o projeto Cittá Invisible faz a ponte entre os projetos socioculturais que serão alavancados em maio e a mostra que será realizada em junho.