Cidade de Goiás abre festival de cinema e vídeo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Cidade de Goiás, GO, 03 (AE) - Festival de cinema, principalmente festival novo, começa com discurso de políticos, promessas fervorosas e cartas de boas intenções. O 1º Fica - Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, não é exceção. Foi aberto, quarta-feira à noite, no Teatro São Joaquim
com a presença do governador Marconi Perillo (PSDB), o vice, Alcides Rodrigues Filho, e outras autoridades, além de artistas concorrentes ou simpatizantes da causa verde, como Lucélia Santos, José de Abreu, Sílvio Tendler, Kátia Mesel, João Batista de Andrade, Assunção Hernandez, Vladimir Carvalho, Maurice Capovilla, Eduardo Caron, Mirella Martinelli, entre outros.
Hoje de manhã, em conversa com jornalistas, o governador disse que o festival serve também para reforçar a idéia de transformar a Cidade de Goiás em patrimônio da humanidade pela Unesco. Funciona, ainda, como embrião de um futuro pólo de cinema goiano. "O Estado tem um potencial turístico e cultural ainda não explorado", disse. Perillo afirmou também que as três próximas edições do Fica, durante o seu mandato, estão garantidas. O cineasta João Batista de Andrade, coordenador deste primeiro festival, disse que pretente fazer do Fica um evento ambientalista em escala realmente mundial.
Tudo dependerá de alguns fatores, como dotação orçamentária, sensibilidade de patrocinadores e resposta da população goiana. Quanto a esta última, não poderia ser mais positiva, pelo menos até agora. A colonial Cidade de Goiás parece invadida por uma verdadeira multidão, que tem lotado as (poucas e precárias) pousadas disponíveis e ocupado as ruas centenárias até altas horas. Resta ver se o entusiasmo permanece. Os organizadores, inteligentemente, não confiaram apenas no propalado poder de sedução do cinema para angariar simpatias. Há desde apresentações de balé a shows da pantaneira Helena Meirelles. De workshops dirigidos pelo artista plástico Siron Franco a sisudos debates sobre a questão ambiental. Ou seja, procurou-se uma integral ocupação de corações e mentes pela via da arte.
Na tela do Teatro (e agora Cine) São Joaquim, o programa inaugural não poderia ter sido melhor. Depois da apresentação dos organizadores e interessados, foi exibido Sinfonia Amazônica
de Anélio Latini Filho, tido como primeiro longa-metragem de animação brasileiro. O longa, realizado em 1953, estava praticamente esquecido. Seu negativo, arruinado, foi recuperado pela Cinemateca Brasileira.
Em geral, quando se fala que determinado filme tem valor histórico, pensa-se naquele tipo de obra chata, boa para permanecer na câmara frigorífica das cinematecas, mas inapropriada para platéias contemporâneas. Sinfonia Amazônica,ao contrário, impressiona pelo frescor de sua narrativa, senso de humor, pela beleza dos desenhos e da trilha musical (esta, diga-se, em parte comprometida pela irremediável má condição da banda sonora).
É resultado do trabalho de um jovem idealista, que a ele dedicou seis anos de esforços. Para que ninguém tenha dúvida das dificuldades de um empreendimento do gênero, o filme, em sua versão original, e agora restaurada, é precedido por um documentário sobre a sua feitura - um making of em linguagem de hoje.
Latini, com 28 anos quando começou a trabalhar no projeto, desenhava a mão, sozinho, sem nenhuma equipe de apoio. Chegou a fazer 500 mil desenhos, escolheu a trilha sonora e trabalhou com sua sincronização na narrativa. Obra de artesão e inspirada em algo hoje meio fora de moda, o interesse profundo pelas coisas do País. Latini era apaixonado pela mitologia indígena. Construiu uma história divertida em que alguns desses mitos pudessem ser descritos: a lenda da criação da noite, a da formação do Amazonas, a do fogo, a do Caapora, a saga do jabuti e da onça, a da Iara e a do arco-íris. Há sequências que são poesia pura.
Em seu tempo, Latini chegou a ser reconhecido por seu mérito artístico. Recebeu em 1954 o troféu Saci, que era concedido pelo Estado. Ganhou também prêmios da Unesco e do Festival Cinematográfico do Rio de Janeiro. O fato de ter sido esquecido, apesar de sua importância, não surpreende. Memória não é mesmo a nossa maior virtude.


