'Cidade de Deus' mostra a cara do apartheid brasileiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de junho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Da conflagrada Palestina de Elia Suleiman em Intervenção Divina ao não menos convulsionado Rio de Janeiro do brasileiro Fernando Meirelles e sua Cidade de Deus. Cannes, vitrine do cinema mundial e festival globalizado, este ano teve nada menos do que quinze países representados na seleção oficial. Ao lado do olhar sobre singularidades de comportamento existencial, na mesma medida os fatos sociais e as situações políticas preencheram as atenções em tempo integral. Uma vez mais a mostra atestou sua missão de troca e de diálogo entre as idéias e os homens, não importa a que distancia estejam.
Cidade de Deus, convidado brasileiro exibido fora de competição mas apresentado com o mesmo destaque e as mesmas honras dos 22 concorrentes, levou a Cannes uma sombria, brutal fração da realidade social do país. Adaptado do romance homônimo autobiográfico de Paulo Lins, o filme, produzido por Walter Salles e sua Video Filmes, centraliza a ação na Cidade de Deus, conjunto habitacional construído nos anos 60 na periferia do Rio e ao longo dos anos transformado num dos locais mais parecidos com aquilo que comumente se descreve como o inferno.
Quem conta a história é Buscapé, cicerone que conduz o espectador ao coração necrosado desta favela marcada pela violência, pelo sangue e pela fatalidade, da segunda metade da década de 60 até quase o final dos anos 80, da maconha à cocaína, da pivetagem mais próxima da malandragem ao tráfico pesado e ao crime organizado, embrião das falanges. O narrador, pouco corajoso para se tornar bandido mas suficientemente sensível para se transformar em fotógrafo, relata as aventuras dos personagens-vítimas do caos que marcaram aqueles limites: Zé Pequeno, Sandro Cenoura, Cabeleira, Benê, Mané Galinha, Dadinho, Berenice, todos entre 12 e 19 anos, todos condenados a não ter morte natural, cedo ou tarde.
Narrado com lógica inexorável, Cidade de Deus trabalha sempre com a noção de que a violência toma conta de tudo quando as pessoas não mais se importam. Experiência visceral sobre a viciada existência que empurra garotos para uma espiral de brutalidade e crime - como única saída de uma roda viva de miséria, fome e desencanto -, Cidade de Deus abre com a observação baseado em fatos reais. Mas ainda que o roteirista Braulio Mantovani tivesse se valido apenas de ficção, a crônica diariamente impressa na mídia do país sobre o convívio com a criminalidade é com frequência mais alarmante do que as imagens a que se assiste com assombro.
O diretor Fernando Meirelles - há um justo crédito de co-direção para Kátia Lund, responsável pela preparação dos atores não profissionais e sempre em nível de excelência - constrói uma narrativa não linear, complexa mas simultaneamente apoiada em uma linha de clareza, saltando no tempo, indo e vindo para contar as histórias dos principais personagens. É evidente o débito de Meirelles para com o diretor de fotografia Cesar Charlone e o montador Daniel Rezende, capazes de diferenciar e definir com dinâmico brilho visual a transição entre os três períodos de tempo. É também óbvio, mas aqui funcional enquanto estilo, o background publicitário gerador da estética visual que Meirelles domina com absoluta precisão, com frequência introduzindo expedientes como tela dividida, slow-motion, cortes abruptos e panorâmicas como chicotadas. Nada disso, no entanto, é acessório ou desvia a atenção do principal. O ritmo pulsa, sempre vibrante, e o intenso recheio humano é realçado nesta afiada e tensa odisséia criminal. Uma trágica odisséia tanto mais poderosa quando se tem a certeza de que seus protagonistas raramente chegam aos 20 anos.


