Cannes - Antes de anunciada a seleção oficial do 55º Festival de Cannes, ‘‘Cidade de Deus’’ era tido no Brasil como certo na competição oficial. Mas ao que tudo indica, o curador Thierry Fremaux preferiu ter Walter Salles no júri oficial - ele também é um dos produtores do filme - e assim ‘‘Cidade de Deus’’ passou à condição de convidado ‘‘hors competition’’, o que ao mesmo tempo é e não é uma honra. Claro que estar em Cannes na seleção é o sonho de todo cineasta, mas ‘‘hors concours’’ pode ter lá suas inconveniências. Como, por exemplo, ser programado num única sessão, em horário ingrato, 11 da manhã (batendo de frente com o filme concorrente do português Manoel de Oliveira, ‘‘O Princípio da Incerteza’’), numa sala nova e ótima mas localizada em andar ainda pouco frequentado pelos jornalistas. Bem melhor teria sido, para a própria carreira internacional que começa agora com distribuição Miramax, a inclusão do filme na sempre seletiva e concorrida mostra Un Certain Regard. O resultado foi um espaço com público reduzido, mas que acabou premiado com uma obra de qualidade muito acima da média.
O título se refere ao projeto de moradias populares lançado pelo governo nos anos 60, e vinte anos mais tarde transformado num dos mais perigosos redutos de criminalidade no Rio de Janeiro. Baseado em fatos reais, o filme faz a reconstituição dessas duas décadas de progressiva violência, partindo do assalto como meio de subsistência até chegar a uma complexa rede de tráfico de drogas pesadas também como forma de sair da pobreza mas agora visando o poder. ‘‘Cidade de Deus’’ conta sua história através da narrativa do personagem ‘‘Buscap钒, a princípio um menino assustando e sensível demais para chegar à criminalidade, mas também muito inteligente para se contentar com serviços pequenos e mal pagos. Ele cresce testemunhando os descaminhos de uma galeria de amigos e conhecidos, se equilibrando numa corda bamba até descobrir que pode ver e avaliar as coisas bem melhor de um ponto de vista artístico. É quando as circunstâncias fazem dele um fotógrafo, e é como ele afinal encontra a redenção.
‘‘Cidade de Deus’’ tem roteiro e diálogos (Braulio Mantovani) de grande precisão, e somados à direção ágil, nervosa de Fernando Meirelles (‘‘Domésticas, o Filme’’), resulta num tipo de cinema visualmente impactante e por isso com forte apelo popular, mas sem nunca perder de vista o preciso, contundente recorte sociológico. E um elenco absolutamente maravilhoso, preparado por Katia Lund, transforma em pura verdade o que os personagens dizem e sentem. Mais um momento de alto astral para o cinema brasileiro.

mockup