Cidadãos de futuro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de agosto de 2004
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
Cidadania, consciência política, análise crítica da situação do país. Essas características não são de profissionais de sucesso, estudantes de faculdades ou políticos de carreira, mas dos alunos da 5 série da Escola Estadual Cássio Leite, o Caic do Jardim Santiago. Eles escreveram cartas para o governador Roberto Requião reivindicando melhorias e expondo o que precisa ser feito para a cidade. A melhor carta de cada sala de aula foi selecionada e enviada a Requião, que enviou respostas às alunas Jéssica Aparecida Canna, 11 anos, Camila Ketlin, 10 anos, e Daniele, que foi transferida para outra escola.
A carta do governador surpreendeu tanto as alunas quanto a professora de português Rosana Peres, que coordenou o trabalho. ''Quando chegou a resposta, as alunas vibraram e teve outros alunos que perguntaram quando a gente ia escrever outra carta. Motivou a todos'', recorda Rosana. ''Fiquei muito alegre por ter chegado a resposta'', completa Camila. E não apenas no campo do português e da escrita houve essa melhora no desempenho escolar. Mostrando consciência e pé no chão, nem a carta do governador diminuiu a visão crítica das alunas. ''Espero que tudo o que estava escrito na carta aconteça. A gente só vai saber se ele se preocupa se fizer as coisas que prometeu'', declara Camila.
Na carta que ela escreveu a Requião há pedidos de melhoria na saúde, segurança e moradia. ''Todos os dias quando venho para a escola passo pelo posto de saúde e sempre tem aquela fila de pessoas que não podem pagar um plano de saúde, gente simples que levanta de madrugada e às vezes volta para casa sem ter conseguido uma consulta por falta de médicos e enfermeira (o)'', relata a estudante em sua carta. Camila também denuncia que sua casa foi assaltada e no dia seguinte o ''cidadão estava nas ruas''. ''Que lei é essa que nós temos que viver presos em nossas próprias casas'', questiona.
Jéssica também solicitou que o governador se preocupasse com a segurança, saúde, moradia e emprego da população. ''Ele está deixando tudo de lado. Ele escreveu a carta mas não vai fazer nada do que escreveu'', diz descrente. Tímida e de poucas palavras, Jéssica relata ainda que se surpreendeu com a resposta. ''Achei que ele não ia responder porque não ia se preocupar com a nossa carta'', diz.
Na carta-resposta, Requião agradece as manifestações das estudantes e aponta que os problemas na segurança, saúde, emprego e moradia são mundiais e que o governo não está omisso em relação a eles. Requião relata vários projetos que estão sendo desenvolvidos em todo o Estado, como o Luz Fraterna que, de acordo com ele, beneficiou milhares de famílias com energia elétrica. Ao final, ele escreve: ''Vocês três estão de parabéns por escrever ao Governador e questionar sobre o que estamos fazendo. Isso é exercer a cidadania e eu fico muito satisfeito com a atitude de vocês''. Requião acrescenta que as cartas seriam enviadas ao Secretário de Educação e elogia a iniciativa da professora.
Rosana conta que o trabalho na área da política continua. ''Pedi para eles fazerem uma pesquisa para saber qual a função do vereador e do prefeito. Tem muitos adultos que não sabem nada disso'', esclarece. A professora justifica que o conhecimento é de extrema importância. ''A vida da gente não é só a nossa casa, mas a sociedade e tudo o que a envolve'', argumenta. E as alunas dão um banho de informação e reivindicação em muitos marmanjos quando o assunto é direitos e política. ''Os políticos precisariam fazer mais postos de saúde. Vão colocar um pelotão (da polícia) aqui com 30 policiais, mas deveria ter mais em todas as regiões'', informa Camila, mostrando que além de boa estudante sabe muito bem o que acontece em seu bairro e também em sua cidade. Pena que elas ainda não podem votar.


