Os roqueiros que ainda não conhecem a banda gaúcha Cidadão Quem preparem-se: ela acaba de gravar o CD ‘‘Soma’’, pela Warner, e aposta as fichas nessa produção. Com uma carreira solidificada no Rio Grande do Sul, comemora dez anos de estrada colocando no disco canções de épocas diversas que contam sua história. O título, como se vê, não é aleatório.
Este é o quarto lançamento do grupo que gravou seu primeiro CD, ‘‘Outras Caras’’, pela RFE/RBS em 1993, ‘‘Lente Azul’’, pela Polygram em 1996 e ‘‘Espermatozoom’’, pela Zoom Records em 1998. Desses, aquele que mais teria chance de catapultar os gaúchos para o sucesso nacional foi ‘‘Lente Azul’’. Houve, porém, um erro fatal. ‘‘Lente Azul’’ chegou às lojas num tempo que Luciano Leindecker, baixista e backing do ‘‘Cidadão Quem’’ considera ‘‘um dos piores momentos para se lançar rock no Brasil’’. Foi no auge da onda que ele chama de ‘‘axé-bunda’’, com as mulheres requebrando alucinadas, movidas pelo som pasteurizado.
Um dos dramas nas artes brasileiras – especialmente a da música – é a imposição da monocultura. Esta prática é altamente prejudicial, segundo comenta o artista. Quando as gravadoras adotam um modismo, este acaba por asfixiar tudo que existe à sua volta. ‘‘Quando é ‘bunda music’ só dá isso, ou só sertaneja, ou só pagode’’, reclama.
Luciano explica que os membros do Cidadão Quem – além dele tem Duca Leindecker, nas guitarras, bandolim, teclados e vocais e Paula Nozzari, na bateria e backing – não querem ‘‘‘virar moda pela moda’’. Eles esperam ir ao encontro do público ‘‘que se identifica com a gente’’, ou seja, os que trazem o rock no sangue. ‘‘Pop é uma condição, não um estilo’’, avisa Luciano.
Para ele a música não é um empreendimento em vão. Ela tem ‘‘a função de celebrar e questionar. O fato de acreditar uma coisa, leva a questionar outra. Temos que discutir cidadania, prioridades, aquilo que precisa ser feito. Algumas bandas estão fazendo isso, como o Rappa, e espero que o público entenda’’.
O Cidadão Quem está na mesma trilha. As letras de Duca trazem problemas ‘‘com aspecto pessoal, mas que afetam a todos’’, assegura Luciano. Ele acredita na juventude, e lamenta a falta de disposição da mídia em levantar temas para os jovens refletirem e discutirem sobre eles. Na certeza do trabalho que a banda está realizando, o baixista afirma: ‘‘Estamos na contramão do País, espero que ele tome a nossa direção’’.

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