Cidadania, glamour e polêmica
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segunda-feira, 26 de setembro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br>Reportagem Local 
A polêmica rondou a escolha da mais bela travesti de Londrina, cujo concurso aconteceu no último sábado, no Teatro Cultura. Depois de três empates, a comissão julgadora, formada por dez membros (normalmente são escolhidos números ímpares de pessoas para compor a mesa), deixou que o público desse o voto de Minerva e optasse por duas candidatas: a morena Glória Stefani ou a loiríssima Heloísa Mattos. Só que as mais de 50 pessoas presentes estavam aparentemente indecisas e, depois de tentar-se inutilmente chegar a um consenso através das palmas, o jeito foi dividir a platéia e contar os votos. E dessa maneira, Glória Stefani foi eleita a Miss Travesti Londrina 2005 aliás, desde o início do concurso uma pequena, mas barulhenta torcida, pendia a seu favor. Heloísa acabou ficando em segundo lugar, muito embora reunisse todos os requisitos para levar para a casa a cobiçada faixa.
O que deveria ser uma escolha democrática questionável, mas democrática acabou provocando outra saia-justa: a Miss Londrina Travesti 2004, Nicole Keith, recusou-se a passar a faixa para a eleita. E o jeito foi a ex-miss 2002, Melissa Campos, fazer as honras da noite e coroar Glória Stéfani, 18 anos, 1,75 metros de altura, 70 kg, 90 de busto e 106 de quadril, que ganhou também um aparelho de DVD. Resolvi participar na última hora e foi muito legal. Claro que a gente sempre acha que tem alguma chance, mas eu sinceramente não esperava ganhar, disse ela, fazendo questão de frisar que não levou torcida uniformizada. Desde os 14 anos ela vem moldando o corpo através de silicone no peito, quadril, nádegas e coxas.
Já Heloísa Mattos 28 anos, 1,70 metros de altura, 65 kg, 90 de cintura acabou assimilando bem o segundo lugar, mesmo que na hora desfilasse com a cara um pouco amarrada. Acho que foi justo porque a Glória é muito bonita e muito querida. Mas no ano que vem eu volto com tudo e trago torcida de peso, alfinetou a bela loira, que há sete anos é travesti. Como prêmio, Heloísa ganhou um celular habilitado. Já a candidata Sílvia Góis fez jus à faixa de Miss Simpatia e, de quebra, acabou na terceira colocação
Ao todo concorreram sete candidatas ao título de Miss Travesti Londrina 2005. Durante o desfile, Franciele Finsk acabou desistindo de concorrer. O motivo? O vestido de gala não teria lhe assentado bem. Além do traje de noite, os outros quesitos eram fantasia, desenvoltura e corpo. Heloísa Mattos saiu-se bem nesse último tópico ao mostrar a exuberante forma na fantasia de Eva, escondendo com folhas artificiais de parreira apenas o essencial. Vim fantasiada assim porque quem não tiver algum pecado que atire a primeira pedra, disse ela, embora também não decepcionasse em termos de desenvoltura. Glória também saiu-se bem ao deixar um recado bacana durante asua performance: Nós travestis somos muito mais que personagens das esquinas. Estamos aqui para provar que podemos brilhar em qualquer lugar.
O concurso foi promovido pela quarta vez consecutiva pela Ong Adé Fidan - Casa de Vivência Saara Santana e que teve patrocínio do Programa da Zazá, agência Parquejo di Troia e contou com apoio da Coordenação Estadual de DST/Aids e Secretaria Municipal de Cultura. Desde 2002 o concurso entrou para o calendário de eventos de Londrina como um acontecimento que promove a inserção social. É preciso tirar de vez o estigma de que travesti é um bicho-de-sete-cabeças porque cidadania não tem roupa certa, afirmou Edison Bezerra,o coordenador geral da Ong, cujo trabalho conta também com apoio de organismos internacionais.


