CIDADANIA - Livro discute Aids entre adolescentes e jovens
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de maio de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O tempo não pára, mas a aparição de Cazuza, primeiro ídolo brasileiro a admitir que estava com Aids à revista Veja, em 1989, abriu uma página no imaginário popular que, apesar dos avanços no tratamento da doença, ainda exibe com o título da matéria ''A Agonia do Artista'', a idéia de que os doentes estariam sob um fim inexorável.
Muitas coisas mudaram desde que o roqueiro morreu, principalmente depois da introdução do coquetel de medicamentos no tratamento da Aids. Porém, o estrondo que a doença provoca no imaginário, principalmente entre os jovens, uma população bastante vulnerável à infecção, é semelhante ao que se ouvia nos anos seguintes ao martírio público de Cazuza.
A professora de Antropologia do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Leila Sollberger Jeolás, doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),que desenvolve projetos de pesquisa em Antropologia da Saúde; Imaginário Social da Juventude de Risco, mergulhou nesse universo no livro ''Risco e Prazer - Os Jovens e o Imaginário da Aids'', que será lançado hoje, às 21 horas, no Anfiteatro Maior do Centro de Ciências Humanas (CCH), no Campus, durante a realização do IV Encontro de Aids e Saúde Mental.
Resultado de uma tese, o livro publicado pela Editora da Universidade Estadual de Londrina (Eduel) contou com apoio da Fundação Araucária. A autora entrevistou adolescentes entre 13 e 16 anos e jovens de 19 a 25 anos, estudantes secundaristas de cinco escolas públicas londrinenses.
Dois grupos que vêem a doença com a mesma distância de quem lê sobre a morte de Cazuza há quase duas décadas, como se estivessem acima do risco da infecção - uma construção de pensamento em que o amor ganha a falsa aparência de proteção. ''É mais uma idéia no imaginário, que coloca os jovens expostos ao risco porque, apesar disso, as pessoas estão sendo afetadas pelo vírus'', esclarece Leila Jeolás.
Para esses jovens, a doença ainda é sinônimo de morte iminente, mas há algum tempo, a Aids pulou a cerca dos grupos de risco, sendo que a maioria das pessoas conhece alguém com a doença. ''Mesmo assim muitos jovens ainda pensam que somente pegam Aids os mais promíscuos e usuários de drogas. São mecanismos que chamamos de afastamento do risco. São características de uma cultura que por muito tempo foi associada à morte'', avalia a pesquisadora.
Leila trata das relações de gêneros na pesquisa em que as adolescentes e jovens tentam até negociar o uso da camisinha, mas os rapazes ainda se colocam no relacionamento em uma posição hierárquica superior, não dando chance para que as garotas tomem a iniciativa. A jovem que leva camisinha na bolsa é vista como uma garota fácil.
Na avaliação de Leila, é preciso haver investimento em políticas públicas para adolescentes, abrindo espaço para que os grupos se manifestem e reflitam sobre suas dúvidas. ''Eu e meu noivo, às vezes usamos camisinha. Pra falar a verdade não pra nos prevenirmos contra a Aids, mas pra prevenir a gravidez''.
''Não faço sexo com pessoas contaminadas sem o uso da camisinha e quando fizer farei com cuidado''.
As duas afirmações extraídas dos depoimentos do livro revelam as dificuldades que os jovens têm de pensar sobre as formas de prevenção.
Sobre a questão do prazer e a Aids, Leila lembra que nem os adultos os conseguem pensar racionalmente 100%, quando estão envolvidos afetiva e sexualmente, dificuldade enfrentada também pelos adolescentes e jovens que iniciam a vida sexual - outro fator de risco que precisa ser enredado por políticas públicas.
SERVIÇO:
- Lançamento do livro ''Risco e Prazer - Os Jovens e o Imaginário da Aids'', de Leila Sollberger Jeolás
Quando - Hoje, às 21 horas
Onde - Anfiteatro Maior do CCH, Campus UEL


