Toda semana, o bancário aposentado César Luiz da Silva Pereira e a esposa dele, a dona-de-casa Idê Rocha Silveira Pereira, ambos de 59 anos, gastam pelo menos uma hora realizando um trabalho voluntário pouco conhecido. Eles integram um grupo de ''ledores'', pessoas que fazem leituras de livros para que sejam gravadas e disponibilizadas para deficientes visuais. Para treinar ainda mais pessoas que queiram prestar o mesmo serviço e multiplicar o acervo dos chamados livros falados, está sendo realizada em Curitiba a 1 Oficina de Capacitação de Ledores.
César Luiz e Idê descobriram a atividade de ledores através da filha, que fazia um estágio na Biblioteca Pública do Paraná (BPP), em Curitiba. ''Ela comentou sobre esse serviço de leitura que é realizado na Seção Braile da biblioteca e como o trabalho voluntário sempre atraiu nossa atenção, resolvemos ajudar'', conta o aposentado. A disposição de voluntários como César Luiz e Idê fez com que, atualmente, a BPP conte com um acervo de cerca de 1,8 mil livros falados, disponíveis para audição dos deficiêntes visuais que frequentam o local. O conteúdo, gravado em fitas cassetes, está sendo agora digitalizado, sendo passado para CDs.
Para César Luiz, a satisfação ao se tornar um ledor não poderia ser maior. ''É uma possibilidade de usar nosso tempo livre para contribuir com pessoas que têm algum tipo de deficiência. Sabemos da dificuldade que existe para obtenção de cultura por parte dessas pessoas, o que torna o trabalho ainda mais satisfatório'', diz o aposentado. Apesar de realizarem o serviço há quase quatro anos, César Luiz e Idê nunca passaram por qualquer tipo de treinamento. ''Fizemos apenas um pequeno teste vocal'', conta o aposentado.
Para melhorar ainda mais a qualidade desse tipo de serviço e, principalmente, aumentar o número de voluntários, um curso de capacitação de ledores está sendo realizado de hoje até quinta-feira em Curitiba. A oficina é promovida pelo Centro de Inclusão, Arte e Meio Ambiente (Ciama), uma organização não-governamental do Rio de Janeiro, em parceria com a Caixa Econômica Federal.
Durante o curso, serão passadas várias técnicas para tornar a leitura mais compreensível para os deficientes visuais. ''São técnicas de dicção e de boa leitura, por exemplo'', explica a presidente da Ciama, AnaLu Palma, que há sete anos trabalha na divulgação do livro falado.
Além disso, os alunos terão noções de técnicas de dicção e de leitura envolvente. ''Não se trata de dramatização do livro, mas é importante saber interpretar o texto, principalmente para não colocar pausas onde não existem'', diz AnaLu. Segundo ela, o curso não pretende ensinar ninguém a ler. ''Mas é importante que exista uma padronização da técnica de leitura dos livros falados'', defende.
De acordo com AnaLu, o trabalho de ledor voluntário atrai justamente pessoas com o mesmo perfil de César Luiz e Idê. ''Em geral, são aposentados que não querem se acomodar e que reconhecem a importância da leitura para a formação cultural da pessoa'', resume.

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