Para Cida Moreira cantar Tom Waits, Mario de Andrade, Chico Buarque, Bertolt Brecht & Kurt Weill ''não há segredo, apenas entrega''. É o que a cantora faz mais uma vez, ao se aprofundar no lirismo de Cartola (1908-1980), sendo ''o menos óbvia possível''. Da beleza de seu cancioneiro, ''Angenor'' (Lua Music) recupera canções menos difundidas como ''Feriado na Roça'', ''Evite Meu Amor'', ''Fim de Estrada'', ''Senões'' e ''O Silêncio de Um Cipreste'', esta com participação de Marcelo Fonseca.
''O repertório foi dividido de modo a trazer as pérolas que eu já cantava, e as menos conhecidas... Para nossa própria riqueza'', diz Cida. ''Cartola já tem extraordinárias gravações, como a do Ney Matogrosso e da Leny Andrade, por exemplo. Ouvi tudo que pude e principalmente o próprio, e acho que reaprendi a cantar com ele.''
Ela, então, cantou com uma ''simplicidade desconhecida'' nela, só ''pelo impacto da beleza de sua obra''. Esse reaprendizado, ou seja, o exercício de tornar seu canto mais delicado, Cida diz que já vem acontecendo desde 2004, ano que marcou uma grande mudança pessoal e profissional na vida da cantora. ''Deixei de trabalhar com Gil Reyes, com quem trabalhei durante 16 anos, maravilhosos anos. Ele fez todos os meus discos da Kuarup, tínhamos uma linguagem comum de piano, sopros, canções muito dramáticas'', conta a cantora. Decidida a ''optar por outras sonoridades instrumentais'', ela conheceu Camilo Carrara ''e seu violão delicado e sofisticado''.
Cida e Carrara então levaram para o palco o projeto Modinhas e Canções do Brasil, baseado nas modinhas imperiais recolhidas por Mário de Andrade, em 1936, que ela ainda vai gravar, ''com certeza''. Já era para ter gravado, aliás. ''Eu havia mandado o projeto das modinhas para todos os editais oficiais, etc., e fui rejeitada em todos eles'', observa. Então, o violonista Omar Campos , resolveu pesquisar Cartola e Adoniran Barbosa (que ela promete também gravar um dia) e eles se decidiram pelo compositor carioca, coincidindo com seu centenário de nascimento.
Campos assina a produção musical do CD com a cantora e já havia tocado com ela e Reyes por anos, incluindo os discos dedicados a Chico Buarque (1993) e a temas de filmes brasileiros (1997). Quem levou o projeto de Cartola para a Lua Music foi o produtor Thiago Marques Luiz, que fez um belo tributo a Maysa (1936-1977), com diversos intérpretes além de Cida, em 2007.
Carrara imprime seu toque elegante, digno de Cartola, em 14 das 16 faixas de ''Angenor''. As exceções são a ruralista ''Feriado na Roça'', com Campos (violão e viola caipira) e Oswaldinho do Acordeon, e ''Peito Vazio'', em que ela canta acompanhada apenas do piano de Keko Brandão. Outros músicos ''extraordinários que ajudaram o fino bordado'': Toninho Carrasqueira, Mario Manga, Adriano Busko, Loyola, Chiquinho de Almeida e Passarinho. A filha de Cida, Julia, canta com ela em ''Alvorada''.
Uma das faixas despojadas e, ao mesmo tempo, de resultado mais requintado do CD é ''O Mundo É Um Moinho'', em que ela canta apenas acompanhada do violão de Carrara. Outros exemplares são a já citada ''Peito Vazio'', em que ela destila sua porção seresteira, e ''Autonomia'', esta reunindo Brandão e Carrara. Deixando o próprio piano de lado, Cida vai na essência das canções de Cartola, reverente e minuciosa, mas também intensa e com a mesma personalidade que demonstra ao interpretar Tom Waits no ótimo show ''Canções Para Cortar os Pulsos''.
''Conheci o Cartola, assisti ao Cartola, e ele me parecia até agora um pouco inatingível, pois eu não possuía a sutileza que sinto nele o tempo todo. E fui caminhando até ele. Por incrível que pareça, Tom Waits trabalhou muito em mim essa mesma delicadeza. A fúria dramática ficou como opção estética'', conta Cida.
Há quem ache inusitado uma cantora cujo nome é ligado à performance teatral, à ''vanguarda paulista'' dos anos 80, homenagear o centenário de um compositor carioca, que nem a própria escola de samba que ele simboliza, a Mangueira, o fez. ''O senso comum me liga à vanguarda paulista, me liga ao teatro todo o tempo, me chama de paulista, como se eu não fosse apenas uma cantora brasileira. Acho engraçado tudo isso, pois faço parte sim de tudo isso, mas nunca representei apenas um papel como artista, e sempre fiz o que me deu na cabeça, e faço até hoje.''

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