A cantora Cida Moreira solta a voz no Entreacto Bar neste final de semana - hoje e amanhã, a partir das 11 da noite -, comemorando assim o primeiro aniversário da casa. É a segunda vez que ela comparece no endereço da rua Munhoz da Rocha neste ano; e novamente deverá arrebanhar fãs apaixonados.
‘‘Por sua grande qualidade Cida Moreira deveria ser vista neste cidade, no mínimo, duas vezes ao ano. Como ninguém a traz, eu trago’’, disse a proprietária do bar, Lucimar Nicastro.
Cida Moreira conversou com a Folha Dois por telefone. ‘‘Vou cantar bastante Brecht e compositores anteriores a ele, que ainda não cantei em Curitiba’’. Do repertório constarão ainda Chico Buarque (‘‘evidentemente’’), Piazolla, Tom Jobim, Tom Waitts. ‘‘Será uma seleção hard, contundente. É o que está me interessando cantar no momento’’.
É a música propícia para um final de século, aquela que melhor cai nesta época, pensa a artista. Há duas semanas ela esteve em Belo Horizonte participando de uma bienal de poesia. Em sua apresentação foi precedida pela poeta Adélia Prado. Ao final, uma bailarina amiga sua, aproximou-se e fez um comentário que tomou Cida de surpresa:
- Você canta coisas que estão em extinção, e faz com que elas vivam novamente.
‘‘Acho que vou adotar essa coisa’’, pensa a cantora. Sobre a apresentação em Curitiba, é enfática: ‘‘Cantar no Entreacto é uma coisa sem compromisso, e ao mesmo tempo tem todo compromisso. Ele me dá a liberdade de chegar e montar ali o roteiro, com músicas que eu amo. Aliás, tudo que canto faz parte das minhas paixões. O mais legal é a celebração do encontro’’.
Quando abriu as portas do Entreacto há um ano, Lucimar Nicastro tinha em mente um projeto que julgava intocável - ser um espaço para a boa música brasileira. Entre a euforia da inauguração e o sopro da primeira velinha, muita água rolou. Entre os ensinamentos aprendidos está o da dura realidade de mercado - MPB não vende o suficiente.
‘‘O bar se sustenta’’, afirma. ‘‘Se colocasse pagode ou música sertaneja, iria estourar, mas essa não é sua proposta’’. Pode não estourar, mas quem o frequenta sabe o que quer ouvir. Domingo passado os presentes tiveram a grata surpresa de ver no palco o grupo Regra Quatro, tocando e cantando o melhor da música brasileira. O integrante mais velho do conjunto tem 18 anos.
No início da madrugada de uma quarta-feira, o salão estava movimentado com uma festa de aniversário, quando Caetano Veloso entrou e ocupou uma das mesas. Ele terminara seu show no Teatro Guaíra e queria tomar canja. Lucimar preparou o prato ao ídolo, que se sentiu tão bem no local que subiu ao palco e cantou para os presentes.
‘‘O público do bar foi maravilhoso. Ninguém incomodou-o. Uma garota acompanhou a apresentação dele encostada numa coluna, chorando copiosamente. Na hora de ir embora, deixou seu autógrafo no palco: ‘Amei este Entreacto’’’, conta a proprietária.
Por ali também andou Nana Caymmi, um dia antes de estrear seu show no Teatro do Paiol. A cantora da noite era Rose Moraes, acompanhada por Boldrini no baixo, Fernando Louco na percussão e Ezequiel Piáz no violão. A certa altura Rose começou uma música de Dorival Caymmi e a filha não se conteve: subiu ao palco para um dueto. Saiu do bar encantada pelo violonista. ‘‘Queria um profissional como ele para tocar comigo’’.
‘‘Essas são coisas que acontecem no Entreacto. Não sei se é normal acontecer em outros bares’’, encerra Lucimar Nicastro.

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