Ciclo "Passagens" inaugura nova fase do Centro Universitário Maria Antônia
Ciclo "Passagens" inaugura nova fase do Centro Universitário Maria Antônia19/Mar, 14:04 Por Maria Hirszman São Paulo, 19 (AE) - O evento "Passagens", que será inaugurado amanhã (20) no Centro Universitário Maria Antônia, em São Paulo, simboliza de forma perfeita o novo perfil que a instituição pretende adquirir daqui para frente. Aliando reflexão artística e intelectual, esse ciclo de exposições e palestras - organizado em parceria com o Instituto Goethe - tem por ponto de partida o clássico "Trabalho das Passagens", obra inacabada de Walter Benjamin, na qual o filósofo alemão faz uma brilhante análise do modernismo a partir da observação arguta da fisionomia urbana e social de Paris, a capital da modernidade. A tese central do evento - que já teve uma versão em Paris - é a de que as categorias utilizadas pelo filósofo para pensar a modernidade (como as noções de fragmentação e alegoria) aplicam-se ainda melhor para a compreensão da contemporaneidade. Duas formas de expressão são contempladas: as artes visuais e a música, que será abordada apenas conceitualmente, durante o ciclo de palestras que ocorre entre os dias 21 e 24. Já as artes plásticas serão trabalhadas em dois núcleos expositivos. O primeiro e maior deles contrapõe três discursos plásticos distintos. Um ensaio fotográfico feito pelo mestre Robert Doisneau nas passagens de Paris (galerias comerciais que proliferaram na virada do século e inspiraram Benjamin como símbolos da crescente fetichização da mercadoria) convive no mesmo espaço com obras recentes de Elaine Tedesco, Rosana Monnerat, Sandra Cinto e Nuno Ramos. Também estará sendo exibido no local o vídeo "The Passing", de Bill Viola. A curadoria é de Mammi e Cláudia Valadão de Mattos. Quem quiser ver o outro núcleo expositivo terá de esperar até quinta-feira, quando será inaugurada no Instituto Goethe a mostra de desenhos do artista alemão Wolfgang Schmitz, também inspiradas nas passagens parisienses. Há uma interessante ousadia nessa contraposição de trabalhos tão diferentes. A obra de Doisneau, feita em meados do século, funciona como uma espécie de matriz narrativa que se contrapõe aos comentários contemporâneos. "Suas fotos representam um olhar mais moderno, pegando esse momento intenso, privilegiado da imagem", explica o crítico Lorenzo Mammi, que assumiu em meados do ano passado a missão de renovar e dinamizar o Centro Maria Antônia. Essa espécie de homenagem que o fotógrafo faz a essas ruas comerciais cobertas, nas quais a burguesia da virada do século podia passear tranquila e confortavelmente (nelas surgiram as primeiras vitrines, as primeiras iluminações de rua...), tem um evidente tom otimista e é repleta de momentos narrativos. Já nas obras contemporâneas há um certo incômodo, um esfacelamento do sujeito artístico. Vazio - Rosana Monnerat, por exemplo, expõe uma série inédita de 15 gravuras, nas quais decompõe a tela "Navio dos Imigrantes", de Lasar Segall. "Nessas obras, as figuras são extraídas de seu contexto, causando uma sensação de vazio que contrasta de forma interessante com o branco-e-preto de Doisneau", explica Mammi. A mostra também dará ao público paulistano a oportunidade de conhecer o projeto vencedor de Nuno Ramos para o Parque da Memória, que será construído em Buenos Aires em homenagem aos desaparecidos políticos. Recuperando a informação de que existiam na capital argentina casas normais que eram usadas pela repressão, nas quais os perseguidos do regime militar ingressavam para nunca mais serem vistos, Ramos projetou uma casa invertida, com as paredes de vidro e apenas portas e janelas normais. "A própria transparência da obra a rende invisível", comenta Mammi, acrescentando que o trabalho parece mostrar que o aspecto arquitetônico que sempre esteve meio latente na obra de Nuno Ramos está vindo à tona. Além de sua relação com a cidade, que já permite estabelecer uma relação com a obra de Benjamin, o projeto de Ramos remete à idéia da casa sem porta, "um tema caro a Benjamin", explica o curador. As obras de Sandra Cinto e Elaine Tedesco também lidam com o espaço, remetendo à idéia de fluxo, de visibilidade, de passagem. Este último aspecto também é o ponto central do vídeo de Viola, no qual se sucedem imagens do nascimento de seu filho, da morte de sua mãe, e de símbolos de movimento como um trem saindo do túnel ou um homem saindo da água. Serviço - "Passagens". De segunda a domingo, das 9 às 23 horas. Centro Universitário Maria Antonia. Rua Maria Antonia, 294, tel. 255-5538. Até 23/4. Wolfgang Schmitz - "Passagens de Benjamin". De segunda a quinta, das 9 às 22 horas; sexta, das 9 às 20 horas; sábado, das 9 às 16 horas. Instituto Goethe. Rua Lisboa, 974, tel. 280-4288. Até 19/4.





