São Paulo, 17 (AE) - São 35 anos de carreira, iniciada com curtas em Curitiba, nos anos 60. O primeiro longa é de 1968 - "Lance Maior", com Reginaldo Faria, Regina Duarte e Irene Estefânia. Durante todo esse tempo, Sylvio Back vem conseguindo desenvolver uma obra coerente e polêmica. Principalmente: tem conseguido manter-se sempre em atividade. Não parou nem nos anos mais negros do cinema brasileiro, talvez porque dos seus 30 e tantos filmes, só um ou dois tenham sido produzidos pela Embrafilme (no tempo em que ela existia). Back conseguiu desenvolver sua obra longe do oficialismo. Não por acaso, é uma das obras mais desmistificadoras do cinema brasileiro.
Essa obra estará sendo revista a partir de amanhã (18), em vídeo, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, que exibe até o dia 28, boa parte, quase a íntegra, da produção de Back. Ficam faltando as obras mais recentes - "O Véu de Curytiba", que o autor espera estrear em março, e "Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro", sobre o poeta catarinense, que Back também espera estrear nos próximos meses, ainda pegando carona no centenário de morte do artista, nome maior do simbolismo no Brasil.
Em setembro, em Florianópolis, durante a rodagem de Cruz e Sousa, Back admitiu que se identificava com o biografado porque ele foi rejeitado na sua época, mesmo sendo um gênio. Back também se considera marginalizado no cinema brasileiro. Ele surgiu à margem, fora do eixo Rio-São Paulo, desenvolveu sua obra no extremo-sul do País. Nem por isso acha que se justifica o sistemático silêncio sobre sua obra - silêncio que ele próprio se encarrega de quebrar, criando filmes que provocam polêmicas, como "Rádio Auriverde", sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália.
Back pode não ser um gênio (não é), mas sua obra merece respeito. São vários documentários - ele não identifica diferenças entre documentário e ficção. As obras de ficção discutem a juventude e a classe média (Lance Maior), a Guerra do Contestado (A Guerra dos Pelados) e o nazifascismo no Brasil (Aleluia, Gretchen). Os documentários discutem a república comunista-cristã dos guaranis, a Revolução de 30, a Guerra do Paraguai, a FEB e o índio brasileiro. Seus documentários, Back gosta de dizer, são desideologizados. Ele estabelece blocos de montagem, joga com imagens e informações muitas vezes conflitantes e deixa o espectador livre para fazer a própria interpretação dos fatos.
Não é Brecht, mas quase. Desde "Lance Maior", Back faz um cinema frio e distanciado. Ele não espera que o espectador se identifique com os personagens de "Lance Maior" - um rapaz de classe média que espera subir na vida por um lance maior, no caso o golpe do baú, casando-se com a garota rica (Regina Duarte). É um filme que continua vivo e atual, em parte porque Back fala a linguagem de seus personagens, faz deles pessoas vivas, num cenário (a cidade de Curitiba) que existe e é decisivo para o desenvolvimento da trama.
Considerada a obra ficcional mais importante de Back, "Aleluia, Gretchen" destaca-se tanto pelos temas quanto pela linguagem - é um filme construído em planos-sequências e desenvolvido em blocos, recorrendo a rupturas de tempo e espaço que representam o que havia de mais avançado, esteticamente, na época (os anos 70). Um dos aspectos mais interessantes do filme é a divisão da narrativa, que permite a cada personagem ter sua parte bem definida, como se a cada um deles fosse dedicada uma ária, como na ópera, que era a arte de Wagner.
É bom citar Wagner porque, no desfecho de "Aleluia, Gretchen", o quarto reich é anunciado por um trecho de Wagner corrompido pelos sons de uma batucada. Mesmo dividindo a narrativa em partes e seguindo cada personagem, o diretor não perde o controle de sua narrativa e constrói belas cenas em que se fundem realismo e inovação. Numa delas, o professor liberal tem um monólogo diante do túmulo da neta. O cemitério é o cenário perfeito para esse momento, pois o personagem que representa a democracia européia está evidentemente expressando um mundo em agonia, em que a morte de uma personagem passa a simbolizar a própria morte do liberalismo e dos ideais humanitários diante da brutalidade do nazismo.
Se "Aleluia, Gretchen" representa a maturidade criadora do ficcionista Back, seus documentários não são menos críticos, além de, muitas vezes, provocadores. Mais do que um documentário de reconstituição, "Revolução de 30", para citar um caso, termina sendo uma reflexão sobre o que é o cinema, segundo o autor. Para Back, ele pode ser o registro de uma realidade (os documentários de época), pode transformar-se em um instrumento destinado a mostrar uma visão ingênua de fatos históricos da realidade (o filme de ficção reconstituído) e pode estar organizado de maneira a passar ao espectador algo mais do que imagens reais e cenas artificialmente criadas (o próprio documentário que está sendo visto). Essa mesma complexidade transparece em "Yndio do Brasil", que discute a utilização da imagem do índio brasileiro, para concluir que índio bom é índio filmado.

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