São Paulo, 30 (AE) - Robert Bresson só gostava de referir-se ao cinema como cinematógrafo. Andou sempre na contracorrente de Hollywood, fazendo filmes que desenvolveram o estilo que o roteirista e diretor Paul Schrader chamou de "transcendente". Por mais anti-hollywoodiano que fosse, mereceu o respeito da Academia de Hollywood. Na festa de entrega do Oscar, no domingo, Bresson foi o primeiro a aparecer na homenagem aos mortos ilustres do ano. Ele morreu em dezembro, aos 92 anos. Estava inativo desde "O Dinheiro", em 1983. Vivia praticamente recluso, com a mulher. Seu gênio será lembrado por meio de um ciclo que começa amanhã (31) no Cine Teatro Recriarte Bijou.
São aquelas obras já exibidas em 1998 no Espaço Unibanco
reprisadas (parte delas) pela Cinemateca no ano passado e pelo Vitrine em fevereiro. Resgataram o autor para toda uma geração que só o conhecia de ouvir falar. Os filmes de Bresson não passavam mais nos cinemas. Um ou outro era exibido na Cinemateca
cópias não existiam em vídeo. Apesar disso, ele nunca deixou de ser referência. O cineasta de Taiwan Tsai Ming-Lian, autor de um dos filmes mais radicais dos últimos anos - "O Rio" -, foi chamado de Bresson do Oriente. Comunga com o mestre francês a convicção de que só a extrema falta de comunicação pode ser fonte para o entendimento e a aproximação entre as pessoas.
O ciclo é formado por seis filmes. Metade da obra que ele rodou em 40 anos de carreira, iniciada em 1943, com "Anjos do Pecado". Antes deste filme, em 1934, Bresson teria feito um média-metragem chamado "Les Affaires Publiques". A cópia se perdeu e ele adquiriu a dimensão de filme mítico. Por ordem de produção, os filmes exibidos são os seguintes: "As Damas do Bosque de Boulogne, O Batedor de Carteiras", mais conhecido pelo título original, Pickpocket, "O Processo de Joana dArc, A Grande Testemunha, Mouchette, A Virgem Possuída" e O" Dinheiro".
Para completar a íntegra de Bresson ficam faltando o citado Anjos do Pecado, Le Journal dun Curé de Campagne, Um Condenado à Morte Escapou, Une Femme Douce, Les Quatre Nuits dun Rêveur, Lancelot du Lac" (que foi exibido no ciclo do ano passado) e "Le Diable Probablement". A maioria, quase todos esses filmes, discute a condição existencial do homem.
Ao longo de sua admirável trajetória, Bresson procurou sempre criar o que chamava de "imagens puras". Pela austeridade do seu estilo, era chamado de "jansenista da mise-en-scne". Não há um só filme da programação que não mereça ser colocado nas nuvens, mas há os que se destacam. "Pickpocket" atinge a perfeição na montagem das cenas que mostram o batedor de carteiras em ação. Hollywood, com seus efeitos, sua montagem acelerada, não consegue criar aquela espécie de balé em que as mãos exercem inequívoca fascinação sobre o público. A Joana dArc de Bresson situa-se nos antípodas da Joana dArc de Luc Besson.
O cineasta debruça-se sobre o julgamento, não lhe interessam as grandes batalhas. "A Grande Testemunha" conta a história da via-crúcis de um burro, em paralelo com a de uma garota. "Mouchette", baseado em Bernanos, trata do sofrimento da protagonista, que só colhe decepções em sua passagem pelo mundo. O fim desse filme é maravilhoso. Mouchette deixa-se cair para subir. O cinema transcendente de Bresson trata da busca da graça, que ela, como outras de suas heroínas, atinge. Serviço - Mostra Robert Bresson. Amanhã, às 14 horas, As Damas do Bosque de Boulogne; às 16 horas, O Batedor de Carteiras; às 17h30, O Processo de Joana dArc. Sábado, às 14 horas, A Grande Testemunha; às 16 horas, O Dinheiro. Domingo, às 14 horas, O Processo de Joana dArc (reprise); às 15h15, O Batedor de Carteiras (reprise). De terça a domingo. R$ 6,00 (dois filmes no mesmo dia também R$ 6,00). Cine Teatro Recriarte Bijou. Praça Franklin Roosevelt, 172, tel. 257-2264. Até 6/4

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