São Paulo, 27 (AE) - Sílvio de Abreu tinha 13 para 14 anos por volta de 1955. Numa época de grande repressão, estava com a libido à flor da pele. Foi quando descobriu as gostosas do cinema mexicano. Adorava Ninon Sevilla e Maria Antonieta Pons. O tempo passou, Abreu virou um dos mais famosos autores de novelas do País, mas a velha preferência pelo melodrama mexicano permanece. Abreu não está perdendo nenhuma sessão do ciclo dedicado ao cinema do México na 23ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Está sendo particularmente prazeroso para ele reencontrar Ninón Sevilla. Ele lamenta apenas que o ciclo do melodrama na mostra não traga nenhuma fita de Maria Antonieta Pons.
Abreu se lembra do tempo da sua adolescência. Havia dois cinemas no centro de São Paulo que exibiam filmes de forte conteúdo erótico, quer dizer, pareciam fortes, naquela época em que tudo era proibido. Um era o Broadway, o outro, o Jussara. O segundo mostrava a produção européia. Era onde estreavam os filmes de Ingmar Bergman. Tinha um verniz intelectual. Nele passavam os filmes com as estrelas francesas e suecas da época. O Broadway era o reduto das mexicanas. Abreu babava por elas.
Hoje, com o recuo do tempo, pode dizer que o melodrama mexicano exerceu forte influência sobre a sua formação e é responsável pelo tipo de trabalho que faz na TV. "Sou a soma dos estilos que me apaixonavam: o melodrama mexicano, a chanchada da Atlântida e o musical americano." Abreu confessa: sempre gostou muito de cinema. Seu roteiro preferido, o mais genial que ele já viu, é o do filme Providence, de Alain Resnais. "Mas se eu for fazer aquilo na TV, as pessoas vão achar que estou louco: é muito exigente, muito sofisticado." Na escola do melodrama, ele aprendeu que a fórmula do sucesso, no cinema e na TV, é a comunicação.
De todos os melodramas do ciclo, seu preferido é Aventurera, de Alberto Gout, com Ninón Sevilla. Ela faz uma jovem que se prostitui e é explorada por uma cafetina. Quando arranja um namorado que quer se casar com ela, o rapaz resolve apresentá-la à mãe, que é ninguém menos que a cafetina. E dê-lhe sofrimento para a protagonista. Abreu destaca as virtudes narrativas: "A trama é clara, nunca é reflexiva, a ação comanda do começo ao fim." Ele vê a origem do melodrama no circo. Não copia, mas baseia-se na mesma raiz para suas novelas. "Gosto de misturar comédia e drama, alegria e tristeza." Ele diz que, quando começou a escrever novelas, nos anos 60, podia ousar mais, porque o público tinha mais escolaridade. Hoje, com o Plano Real, cresceu a faixa da população C e D que tem TV. Esse público não tem cultura nem informação. Para comunicar-se com ele, é preciso ser simples e direto, sem sofisticação. Boa fórmula é beber na fonte do melodrama mexicano.
Melodrama, na própria raiz da palavra está o segredo. Drama com música. Abreu resume: "A mocinha quase sempre dança no cabaré, o que é pretexto para que entrem os números musicais." O cabaré é o espaço por excelência da transgressão feminina. A mulher cai na vida porque é forçada pelas circunstâncias. Não tem culpa. Se não é prostituta, é mãe e sofredora. A remissão pelo sofrimento. Abreu acha que o melodrama mexicano tem mais a ver com o público brasileiro do que o congênere americano. A retrospectiva lhe tem permitido rever e consolidar velhos conceitos. Houve muitas divas no melodrama mexicano. A deusa Maria Félix é muito intelectual para o gosto dele, muito politicamente correta. "Em Rio Escondido, ela faz a professora que luta contra a tirania." Abreu prefere as bagaceiras - Ninon Sevilla, tão maravilhosa em Aventurera. Gostaria de poder rever também Maria Antonieta Pons, com aquelas pernas de rumbeira que enlouqueciam de desejo seus sonhos de adolescente.
Nessas idas às salas que exibem a retrospectiva, ele só lamenta uma coisa - não viu muitos adolescentes. "O público é da faixa dos 50 anos", diz. "Gostaria que os jovens também descobrissem essa vertente importante da expressão latino-americana." O cinema de lágrimas é nossa raiz. Evoca uma época em que o público latino enchia as salas para chorar. Depois, com o advento dos cinemas novos, o povo foi para a tela e desertou das salas. Abreu baseia-se no melodrama para reabrir a vertente da comunicação com o público. "Sou pela comunicação popular", resume.

mockup