Ciclo de Cinema Colombiano é destaque no CCSP
São Paulo, 22 (AE) - Fãs do cinema latino-americano não devem perder as três atrações do ciclo Cinema Colombiano em Foco
que está ocorrendo no Centro Cultural São Paulo. Amanhã (23) será mostrado "Ilona Chega com a Chuva", de Sergio Cabrera; sábado é a vez de "A Estratégia do Caracol", do mesmo diretor. Domingo, a mostra encerra-se com o polêmico "A Vendedora de Rosas", de Victor Gaviria. São exemplares de fôlego, em especial os dois últimos.
Primeiro, uma palavra sobre Sergio Cabrera, que esteve recentemente no País, por ocasião da Cimeira, reunião de cúpula dos países latinos-americanos, Europa e Caribe realizada no Rio. Não foi sua primeira vez no Brasil. Cabrera já esteve aqui apresentando uma retrospectiva de sua obra. E foi ganhador do Festival de Gramado de 1992 com o seu ótimo "Técnicas de Duelo", infelizmente ausente do ciclo. É filho de poeta e militou na guerrilha. Morou muitos anos na China, onde seu pai esteve exilado. Costuma levar toda essa experiência de vida para os filmes que faz.
Mas "Ilona Chega com a Chuva" não chega a ser o melhor deles. Conta a história estranha da personagem-título, interpretada pela bela Margarita Rosa de Francisco, mulher que oscila entre o amor de dois homens. O affair é acompanhado ao longo dos anos e em países diferentes. O mínimo que se pode dizer é que tem clima. Um filme meio fronteiriço, muitas vezes ambientado em portos misteriosos, navios errantes e situações afins. Acaba não se definindo exatamente quanto ao rumo a tomar.
No entanto, e apesar dessa falta de bússola, fica perceptível um certo acento, digamos assim, um sotaque estilístico de um realizador influenciado pelo realismo mágico - não fosse ele conterrâneo do grande Gabriel García Márquez. É o que dá encanto a uma história que no entanto fica prejudicada pelo artificialismo de algumas situações. Mas, veja bem: com todos esses defeitos, "Ilona" é superior a 90% das drogas que estão por aí no circuito comercial e que são lançadas com alarde de obras-primas.
Já "A Estratégia do Caracol", que passa sábado, é trabalho de um diretor em sua melhor forma. A história é a de um grupo de inquilinos que ocupa um prédio prestes a ser demolido. Num primeiro momento, o filme ironiza a burocracia e a força policial, com as cenas hilárias do escrivão montando sua banca, com máquina de escrever e tudo, no meio da rua, em frente do prédio. Logo a seguir, mostra-se a luta do pessoal ameaçado, para contornar a ação de despejo. O tom do filme é o que ele tem de melhor.
Poderia-se, talvez, esperar de um ex-guerrilheiro que mostrasse uma luta convencional de resistência dos moradores, etc. Cabrera é bem mais sutil. Parece descrer da eficácia da violência em matéria de política. Substitui, com vantagens, o uso da força pela astúcia. Por isso, essa comédia é tão significativa no quadro político da Colômbia. Com sua história singela, mas engenhosa, procura insinuar que não interessa ao fraco um confronto direto com o forte. É melhor usar a inteligência, desviar-se, driblar e usar aquilo que o oprimido costuma ter de melhor: uma hipertrofia da imaginação, anabolizada pela pauleira cotidiana da sobrevivência. É, ao lado
de "Técnicas de Duelo", o filme mais inventivo do cineasta.
Se Cabrera empacota seu recado político com sutileza, Victor Gaviria parte para a denúncia direta com "A Vendedora de Rosas". Sua heroína, neste filme que foi apresentado no Festival de Cannes, é uma garota de 13 anos que ganha a vida vendendo flores em bares e restaurantes de Medellín, namora um traficante e depois foge de casa com uma amiga de 10 anos. Houve certa grita quando o filme foi a Cannes. Houve quem achasse que não tinha nível para competir naquele que é tido como o principal festival de cinema do planeta.
Pode ser. "A Vendedora de Rosas" não é, de fato, nenhum primor em realização cinematográfica. Procura falar diretamente ao espectador por meio de um naturalismo brutal, que não disfarça nem a precariedade da sua realização técnica, nem, muito menos, a realidade que quer retratar. Não poupa detalhes, como a sordidez dos cortiços, os avanços sexuais dos adultos contra menores, as crianças fumando crack. O argumento contrário ao filme diz que mesmo uma justa denúncia precisa ligar-se a certa ambição artística e este não seria o caso de Gaviria. Meia verdade.
É fato que ele não faz força para ir além do patamar modesto de "mostrar os fatos e deixar que cada qual julgue por si". Falta-lhe aquele passo dramático a mais, que dá transcendência artística ao meramente documental. A outra objeção, a de que seria tecnicamente mal realizado, perde força diante do atual endeusamento crítico aos despojados filmes do Dogma 95 dinamarquês. Conteúdo voltou a ter importância no cinema. (L.Z.O.) Serviço - "Cinema Colombiano em Foco". Amanhã, Ilona Chega com a Chuva, de Sergio Cabrera. Sábado, A Estratégia do Caracol, de Sérgio Cabrera. Domingo, A Vendedora de Rosas, de Victor Gaviria. Grátis. Centro Cultural São Paulo - Sala Lima Barreto. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até domingo.





