São Paulo, 19 (AE) - Numa entrevista concedida no ano passado, Alain Delon manifestou a intenção de encerrar sua carreira. Não aguenta mais a hegemonia de Hollywood nas telas de todo o mundo, que se traduz, quase sempre, por filmes infantilizados e cheios de efeitos especiais. "Cinema é outra coisa", dizia ele, com a certeza de quem trabalhou com alguns dos maiores mestres: Luchino Visconti (duas vezes), Joseph Losey (também duas vezes), Jean-Pierre Melville (três vezes), Michelangelo Antonioni e Jean-Luc Godard.
Delon ganha agora um ciclo promovido pela cinemateca da Embaixada da França no Brasil. A partir do dia 26, no Espaço Unibanco, em São Paulo, serão exibidos nove filmes do ator. Inicialmente, seriam dez, mas foi cancelado à última hora aquele que seria um dos títulos mais atraentes do programa (Nouvelle Vague). O ciclo fica, assim, reduzido a nove vezes Delon, mas serão dez vezes, de qualquer maneira, porque continua o sucesso da reprise de "Rocco e Seus Irmãos", o clássico de Visconti, no Espaço Vitrine.
Talvez "Rocco" tenha envelhecido. Nesta época globalizada em que vivemos, não há mais espaço para o belo desfecho da obra-prima viscontiana. Aquela estrada de esperança que Luca, o mais jovem dos cinco irmãos, percorre no fim é um sonho decorrente das ideologias em voga por volta de 1960, quando Visconti fez o filme. Naquela época, podia sonhar-se com o socialismo, com a revolução, com uma sociedade mais justa e mais humana. Hoje, o que prevalece é a lógica do mercado e o mito da competência. No cinema, Hollywood, por ser mais competente, eliminou toda concorrência. Delon está desgostoso com isto. Com tranquilidade, decisão tomada, anuncia que vai deixar a carreira. Mito - Pode deixar a carreira, mas não deixa de fazer parte da galeria dos mitos do cinema. Nascido em Sceaux, em 1935, tinha 25 anos quando Visconti fez dele o Rocco imortal. Delon já havia feito outros filmes antes: pequenas comédias, filmes de época em que luzia sua estampa fulgurante (o jovem Delon foi um dos homens mais bonitos do mundo). Com Visconti começou nova etapa da carreira e da vida.
Visconti usou o rosto de Delon para esculpir a bondade e o idealismo de Rocco, que é definido como um santo por outro irmão (Ciro). Naquele mesmo ano, 1960, outro diretor, René Clément, viu Delon de maneira diferente. Em outro dos filmes cultuados do ator, "O Sol por Testemunha", transformou Delon num assassino frio e impiedoso. O tempo talvez tenha dado razão a Clément. Delon especializou-se nos papéis de homem com rosto de anjo e alma negra. A maioria dos papéis é de assassinos, homens com dificuldade para controlar a própria violência.
Na arte, os críticos só podiam elogiar o acerto de certas escolhas do ator, quando ele trabalhava com os mestres em filmes como o citado "Rocco", "O Leopardo", "O Eclipse", "O Samurai", "Cidadão Klein" e "Nouvelle Vague". Na vida, Delon fazia escolhas mais complicadas. Mesmo tendo sido ligado a um grande homem de esquerda, o aristocrata Visconti, orientou-se para a direita, teve ligações notórias com o submundo francês.
Isto fez dele um personagem polêmico, mas não impediu que colhesse a admiração dos maiores diretores com quem trabalhou. Todos sempre o definiram como o mais profissional dos atores e Losey, resumindo a opinião geral, disse que Delon não era o tipo de homem com quem se podia brincar, mas era certamente aquele com quem se podia contar, em qualquer circunstância.
O ciclo Delon traz nove filmes e traça um panorama interessante da evolução de sua carreira. Faltam os filmes com Visconti, Antonioni e Godard, mas há pelo menos dois que merecem a definição de grandes: "O Samurai" e "Cidadão Klein". Não tão grande, mas cultuado e certamente sólido é "O Sol por Testemunha" (que acaba de ser refilmado por Anthony Minghella, com Mark Damon no papel de Delon).
Os demais filmes reafirmam a preferência do ator pelo gênero policial e pela violência: "Gângsters de Casaca", de Henri Verneuil, "Três Homens para Matar", de Jacques Deray, o próprio "A Piscina", também de Deray (em que ele divide a cena com a bela Romy Schneider, com quem manteve um romance notório). Um deles foi dirigido pelo próprio Delon: "Pour la Peau dun Flic". E há os casos de "Quartos Separados", de Bertrand Blier, e "O Retorno de Casanova", de Edouard Niermans, em que ele, um dos maiores astros da história da França, aceitou desmistificar-se, interpretando no primeiro um homem anônimo, amargurado e derrotado e no segundo fazendo um sedutor decadente.
Todos esses filmes ilustram o que o filósofo Bernard-Henri Lévy disse de Delon: "O que me impressiona nele é
antes de tudo, sua força inquieta; essa estranha veemência, sempre contida, liberada de modo incisivo, operando como uma radiação". A radiação beira a genialidade em "O Samurai" e "Cidadão Klein". O filme de Melville trata das últimas 48 horas de um assassino profissional. Mostra a solidão do matador. O cineasta disse que teve a idéia do personagem ao olhar as linhas do rosto e os olhos de Delon. Ele é perfeito e implacável
caminhando para a morte num filme rigoroso e elegante.
"Cidadão Klein" consegue ser melhor ainda. O mais borgiano de todos os filmes que não foram adaptados de Jorge Luis Borges, com aqueles labirintos que tanto fascinavam o escritor. Delon faz um homem que lucra com a perseguição aos judeus, na França ocupada. Um dia, descobre possuir um homônimo. Tenta encontrá-lo. Faz descobertas assombrosas a respeito de si mesmo. Evolui da escuridão para a luz e chega a uma espécie de consciência trágica. Isto é a essência do estilo de Losey, que fornece a Delon um papel à altura de suas performances máximas.

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