Dalton Trevisan dá as caras em Londrina. Mesmo preferindo a obscuridade, ele chega na voz do ator Mário Schoemberger, no monólogo ‘‘O Ventre do Minotauro ou Esse Maldito Vampiro’’. A peça será apresentada na Sul Mostra Teatro, do Filo, no Teatro Zaqueu de Melo, hoje e amanhã. O título da comédia foi retirado do livro do curitibano ‘‘23 Noites de Insônia’’. Na 17ª, escreveu: ‘‘no teu labirinto, a única saída é o ventre do minotauro’’.
No processo de criação de ‘‘O Ventre...’’, quatro horas de textos se transformaram em uma hora de pura economia literária. ‘‘Mesmo com essa ‘cirurgia’, todo o texto de Trevisan, na peça, está na íntegra’’, diz Mário Shoemberger, ator do monólogo. O diretor Marcelo Marchioro e Mário Schoemberger receberam a benção do enigmático Dalton Trevisan, que acompanhou os ensaios e assistiu a cinco vezes a montagem curitibana. O espetáculo apresenta a concisão característica do autor ao reunir 46 contos.
A peça da Cia. Bravos Atores deu voz a personagens saídos, entre outros, dos contos: ‘‘Morte na Praça’’, ‘‘O Rei da Terra’’, ‘‘O Pássaro de Cinco Asas’’, ‘‘Abismo de Rosas’’, ‘‘A Trombeta do Anjo Vingador’’, ‘‘Meu Querido Assassino’’, ‘‘Ah, É?’’ e ‘‘O Vampiro de Curitiba’’. A cada troca de chapéu, o ator vive um tipo diferente no mundo impiedoso trevisaniano. Ele fala de solidão, traição, amor e velhice. ‘‘É fundamental ser de Curitiba para fazer esse espetáculo’’, garante o ator.
‘‘O Ventre do Minotauro ou esse Maldito Vampiro’’ estreou em 1998, com duas temporadas na cidade e fez o circuito nos cursinhos pré-vestibulares. Atualmente, o espetáculo está em cartaz no Teatro Crowne Plaza, em São Paulo, até 26 de maio. No programa da peça, eles reproduziram uma carta elogiosa do autor sobre a montagem. Mário Shoemberger recebeu o Prêmio Gralha Azul e Poty Lazzaroto, ambos de melhor ator em 1998.
Dalton Trevisan nasceu em 1925, mas o escritor surgiu em março de 1945. O jovem Dalton sofreu uma fratura no crânio após uma explosão da chaminé no forno da fábrica de cerâmica e vidros da família. Numa de suas raras entrevistas, em 1979, ele relembrou: ‘‘olhei pela primeira vez a morte dentro dos olhos, e, mais que o sofrimento físico, doeu a revelação de que era mortal. Nesse dia, nasceu o escritor’’. E, certamente, o mito. Trevisan foge da mídia como o vampiro do alho. Por isso, o contato com ele pode ser feito lendo suas obras clássicas: ‘‘O Vampiro de Curitiba’’ (1965); ‘‘Novelas Nada Exemplares (1959), ‘‘2/3/4/’’ (1997) e ‘‘A Polaquinha’’ (1985).
O Ventre do Minotauro ou esse Maldito Vampiro – Textos de Dalton Trevisan, direção e pesquisa musical de Marcelo Marchioro, direção de movimento e assistência de Sandra Zugman, iluminação de Beto Bruel e figurino da Usina das Artes. Com Mário Shoemberger. Hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.

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