Chutes sobre a Copa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de julho de 2002
Lula Vieira<br> Especial para TV Press 
Ou eu fiquei louco o que nem de longe é uma impossibilidade ou não é bem assim esta história de que a Copa de 2002 teve a maior audiência de toda a história. O que aconteceu é que esta Copa teve o maior número de televisores ligados. E isso se deve simplesmente porque teve menos gente assistindo por aparelho. Pelos horários doidos (doidos para brasileiro), a turma não se reuniu para ver o jogo na mesma proporção que nas Copas anteriores. No fim das contas, é verdade que houve uma quantidade maior de aparelhos de televisão ligados, mas o número total de espectadores não parece ter aumentado ou diminuído. Estou falando, claro, proporcionalmente. Em números absolutos está evidente que a torcida cresceu. Em quatro anos, milhões de novos brasileiros vieram engrossar as fileiras da torcida canarinho.
Também pelo horário, as manifestações de rua foram menos visíveis, com exceção da final. Não vamos nos esquecer que, tirando os profissionais da birita, foi um pouco mais difícil você encher a cara às oito ''de la matina'' do que às três da tarde. E manifestação de rua sem uma expressiva proporção de pinguços fica meio vazia. Quinhentos bêbados valem tanto quanto um congresso eucarístico inteiro. Toda a Praça de São Pedro rezando pelo novo papa perdeu feio para meia centena de torcedores comemorando um campeonato. A diferença está exatamente na participação velha cana. Outra coisa: a memória da gente é fraca. Nós sempre achamos que o clima de Copa do Mundo não é o mesmo ''dos anos anteriores''. Assim como o Natal, como o Carnaval e como qualquer coisa na vida, antigamente era melhor. O tempo, à medida que vai passando, tem a virtude de encantar a lembrança. Meu ''euforiômetro'' garante que a gente participou da torcida pela Copa mais ou menos parecido todos esses anos.
Outro comentário, desta vez sobre ''business''. É verdade: cada vez mais a Copa fica cara para as redes de televisão. E em 2002 a Globo sofreu um bocado para viabilizar sua exclusividade na transmissão. Não sou bem informado sobre os bastidores da Globo, mas acho que para garantir a exclusividade e com isso bater duro na concorrência que anda botando as manguinhas de fora, eles apostaram forte. Pagaram o que os ''homi'' da FIFA pediram e não quiseram saber de sócios. Daí o negócio ficou alto, coisa de cachorro grandíssimo. Evidentemente, não foi fácil vender as cotas. Poucos clientes têm bala na agulha para pagar os zilhões necessários para garantir seu nome nas chamadas. De qualquer forma, é bom lembrar, uma cota de patrocínio é um pacote de inserções montado de forma que minimiza os riscos diante de má performance ou até eliminação da seleção brasileira. Não é necessariamente uma loteria. Você, quando compra uma cota dessas, está arriscando bem menos do que parece. A quantidade de comerciais exibidos e o índice de atingimento deles não sofre grandes mudanças em relação ao resultados dos jogos do Brasil.
Sim, o estilo de propaganda ficou diferente. O Brasil está diferente. Nós não estamos numa fase de elevada auto-estima e as mensagens delirantes tipo Brasil Grande ou Ninguém Segura Este País soariam meio ridículas. Logo, como se pode perceber, as mensagens ficaram no terreno da fé, da união, da torcida, na emoção. Mais do que isso, não é o caso.
Agora um comentário de torcedor: que delícia não ouvir a voz do locutor de comerciais com aquela falsa euforia repetindo milhares de vezes (pelo menos parece) um sloganzinho durante a transmissão do jogo (''Picolé Duarte - a alegria da torcida campeã!'', ''Casas Palhares: todo calor da Copa'', ''Refrigerantes Puro Suco - a alegria do gol na garrafa''). Jogo é jogo, comercial é comercial. E quem diz isso é um publicitário. Ou talvez eu diga isso exatamente por ser, antes de mais nada, um publicitário.


