A estudante Roberta Bonilauri, 15 anos, é uma das melhores jogadores do time de futebol da sua escola. Avessa às tradições, ela sempre preferiu brincar na rua do que ficar em casa embalando as bonecas. Responsável por suas atitudes, a adolescente tem consciência da enorme diferença que há entre a sua geração e a de seus pais.
‘‘Sei que mudou muita coisa’’, afirma. Por opção dos pais, ela fez balé clássico e sapateado até os sete anos, mas depois pode seguir suas próprias vontades. ‘‘No começo, meu pai não gostava que eu jogasse futebol, pois eu entrava no time dos meninos e acabava me machucando’’, diz ela. Roberta conta que as coisas mudaram quando a escola criou times femininos e ela pode jogar com as meninas.
Sua mãe, a professora Maria Regina Bonilauri, confirma que as retrições do pai aconteciam porque a filha voltava dos jogos machucada e porque aprendia muitos palavrões. Depois da Copa do Mundo de 1994, quando o futebol feminino começou a ser incentivado, Roberta pode treinar apenas com meninas, o que mudou a situação.
Apesar da permissão, Maria Regina confessa que tentou fazer com sua filha o que sua mãe tinha feito com ela. ‘‘Eu brinquei muito de boneca, me vestia de outra forma e usava laços no cabelo’’, lembra. ‘‘A Roberta, entretanto, sempre preferiu outros tipos de brincadeira, deixando a boneca Barbie jogada num canto’’, diz.
Num eterno esforço para entender uma adolescente típica do século 21, a mãe precisa ainda conviver com a exigência da informática e com pedidos ousados, como o desejo da filha em fazer uma tatuagem no corpo. ‘‘É tudo bem diferente da minha época, quando chegávamos até a apanhar da mãe e compreendíamos nossos pais apenas por um olhar’’, compara.
Apesar da aparente evolução dos hábitos entre pais e filhos, Maria Regina questiona a eficiência da atual liberdade dada aos filhos. Ela afirma que foi muito feliz em sua adolescência, apesar da educação rígida. ‘‘A impressão que eu tenho é que hoje fazemos tudo pelos filhos e ainda não está bom, eles nunca estão satisfeitos’’, confessa.
O estudante Tharsius Roberto Laus, 14 anos, discorda. Ele sabe que tem mais liberdade do que seus pais tiveram, mas reconhece o apoio que recebe em casa. ‘‘Eles tinham que se virar sozinhos, enquanto que a minha geração é mais livre para opinar’’, compara.
Satisfeito com a sua liberdade, ele optou primeiramente por seguir o curso de modelo. Na mesma época, decidiu colocar um brinco na orelha. Há três anos, Tharsius participa das aulas de teatro de sua escola e, há dois, ingressou no curso de sapateado do colégio onde estuda. ‘‘São 140 meninas e eu’’, conta. Sem nenhum constrangimento, ele conta com orgulho que faz o que gosta e que quer seguir a carreira artística.
‘‘A reação da minha família sempre foi a mais positiva possível, com apoio total às minhas decisões’’, comenta. Apesar de sua total liberdade, ele conta que nem todos os seus amigos têm a mesma sorte. ‘‘Um amigo meu pintou o cabelo de azul e o pai não queria que ele entrasse mais em casa’’, conta.
Seu colega de colégio, Juliano Maier, 14 anos, é um desses casos. Ele entrou no grupo de teatro da escola em 1997 e chegou a se apresentar com a peça ‘‘Joana D’ Arc’’ no Festival de Teatro Amador do Shopping Água Verde, quando o espetáculo foi premiado. ‘‘Abandonei o grupo no final do ano passado, por falta de tempo e porque meus pais não me apoiaram’’, diz.
Ele comenta que muitos dos seus amigos usam brincos, piercings e cabelo descolorido, mas Juliano não aderiu a nenhum desses adereços. ‘‘Meus pais não deixariam nem por decreto’’, explica.

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