Churrasco seduz os americanos
Comer carne em
churrascarias de
rodízio vira moda
entre os
norte-americanos
que adoram o
know-how gaúcho
Arquivo FolhaUma boa picanha, que os americanos chamam de rib, está entre as partes do boi preferidas nos restaurantes. Os gringos não são nada bobos...
Renan Antunes de Oliveira
Especial para a Agência Estado
Nova York - É barbaridade o número de churrascarias de rodízio que, de uma hora para outra, conquistaram um nicho de consumidores norte-americanos. Elas já são cerca de 30, espalhadas da Califórnia a Nova York, passando por Boston, Flórida, Texas e Colorado. Todas foram montadas por gaúchos autênticos.
A moda do all you can eat (toda carne que você puder comer), agora é cada vez mais confundida pelos americanos como sendo a cozinha brasileira - mesmo quando os negócios estejam na mão de coreanos e, suprema heresia, os assadores sejam mexicanos.
Cadê os gaúchos? Aquela figura de bombachas, passando um espeto sem pingar na roupa do freguês, virou mito. Aqui, ele só é conhecido como meat runner (pronuncie mit raner), que significa passador de carne.
Arquivo FolhaO rodízio seduz pela quantidade, agora entre os americanos a regra é quanto mais carne melhorO negócio deles é só montar churrascarias. Por causa da globalização, eles são dispensados assim que a casa consolida sua fama: a mão-de-obra mexicana custa US$ 5 por hora, contra US$ 18 de um bom assador do Rio Grande do Sul.
Como o segredo é passado de um gaúcho para um mexicano? Por vídeo. A rede Greenfield produziu um especial de TV mostrando os segredos do corte e do espeto. Cada novo empregado senta na frente de um videocassete e vê o programinha - resultados variam.
O meat runner ensina aos hispânicos o que é um tenderloin, um sirloin, uma rib - os nomes gringos para filé, costela, picanha. E tudo vai para o cardápio em inglês.
A sofisticação é obrigatória, porque rodízio, nos Estados Unidos, não é churrascaria de beira de estrada. É negócio fino, em casas luxuosas. Tem que ter ar condicionado e estacionamento, se não, gringo não pisa no salão - e ele não aceita pingo de gordura na roupa.
Preenchidos esses requisitos, o negócio é rentável. Tanto que os empresários brasileiros do grupo Rodízio Grill trocaram uma franquia da Pizza Hut, no Brasil, por três casas em Denver, no Colorado, escolhida por ser a cidade com o maior consumo de carne per capita dos EUA. Agora, o grupo está investindo US$ 8 milhões em churrascarias no interiorzão norte-americano. Com um minucioso plano de marketing em andamento, seus sócios, entre eles o corredor de Fórmula Indy André Ribeiro, planejam abrir 40 rodízios em 10 anos.
Há uma pequena rede operando na Califórnia e várias casas independentes em outros estados. Todos ficam de olho no sucesso das casas Plataforma, da recém-inaugurada Rio de Janeiro, ambas em Nova York, e da rede Greenfield, seis rodízios em Nova York e Nova Jersey - todos torcem para que a crítica especializada fale bem delas e a fama se espalhe.
Rodízio como os de Nova York são negócios de US$ 2 milhões de dólares cada. Eles têm de faturar no mínimo US$ 500 mil por mês para sobreviver - encarando a concorrência dos 17 mil restaurantes da cidade.
Das churrascarias de Nova York, apenas a Plataforma e a pequena Girassol, de Astoria, pertencem a brasileiros. A rede Greenfield e a Rio de Janeiro são de coreanos, gente com laços com a comunidade brasileira - a Rio emprega de barman um filho de Chico Anísio.
No início, todas as casas funcionam no impecável figurino gaúcho. Depois, mesmo as mais sofisticadas desandam. Um gaúcho de verdade fica revoltado com o serviço, com a carne, e, principalmente, com o preço médio de US$ 30 por pessoa.
Com esse dinheiro, dá para fazer um churrasco com 15 quilos de costela gorda, em Porto Alegre. Em Bagé, ainda daria para acrescentar à conta algumas cervejas.





