Christie's abre espaço para arte brasileira
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quinta-feira, 27 de maio de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 28 (AE) - A arte brasileira contemporânea chega nesta quarta-feira a uma das mais conceituadas casas de leilão do mundo, a Christies de Nova York. Obras de artistas consagrados como Cildo Meirelles, Waltércio Caldas, Lygia Clark e Mira Schendel serão colocadas à venda com trabalhos de artistas da nova geração como Beatriz Milhazes e Adriana Varejão
nos leilões programados para a próxima semana e novembro. Pelo menos 29 lotes são de obras pertencentes ao colecionador e ex-marchand paulistano Bruno Musatti.
Depois de duas vendas de obras latino-americanas no ano passado, a Christies resolveu investir agressivamente na arte brasileira, colocando a coleção de Musatti ao lado de telas do mexicano Diego Rivera, do cubano Wifredo Lam, do argentino Antonio Berni e do uruguaio Torres García. Provoca surpresa o valor dos lances iniciais desses latinos, não muito diferentes da cotação de algumas obras brasileiras, o que traduz a valorização crescente da arte nacional no exterior.
Isso não significa necessariamente que as cotações no Brasil acompanhem as internacionais, até mesmo porque o mercado brasileiro não oferece liquidez para obras de arte. De qualquer modo, a abertura de um canal como esse representa muito para o artista brasileiro num momento em que as vendas ainda são tímidas. Essa equiparação só é possível porque uma especialista do departamento latino da Christies, Ana Sokoloff, visita constantemente o Brasil, conhece os principais galeristas e artistas e acompanha a Bienal Internacional de São Paulo há muitos anos.
Em outras palavras, as cotações ainda são artificiais, mas podem empurrar a arte brasileira para cima -- e a divisão do leilão em duas fases faz parte de uma estratégia para despertar a curiosidade e o interesse de colecionadores. As galerias brasileiras procuram cada vez mais a porta de saída dos aeroportos, participando de feiras internacionais como a Arco, de Madri, para divulgar seus artistas. No catálogo do leilão de Christies três galerias ganham destaque: Camargo Villaça, Thomas Cohn e Luísa Strina.
Bruno Musatti garante que não procurou, mas foi procurado pela Christies. "Tomei a resolução de colocar em leilão obras que têm circulação lá fora", diz. "Não adiantava colocar, por exemplo, obras de artistas como Leonilson", conclui. Chama, porém, a atenção que uma artista da mesma geração de Leonilson, Beatriz Milhazes, consiga uma cotação próxima dos veteranos. Uma tela sua, de valor estimado entre US$ 10 mil e US$ 15 mil, custa o mesmo que um desenho de Mira Schendel, pintora suíça que se naturalizou brasileira e participou de várias bienais internacionais.
Preços - Bruno não sabe explicar a disparidade. Diz que a responsabilidade pela fixação dos lances iniciais das obras cabe exclusivamente ao pessoal da Christies. "Ana Sokoloff está muito bem informada sobre os artistas e os preços praticados no mercado brasileiro", justifica. A preferência recai sobre artistas que não trabalham com suportes tradicionais
embora a pintura esteja representada por telas da própria Beatriz e de Daniel Senise, entre outros. "Mas os americanos buscam algo diferente", observa. "A grande vedete, o golden boy, hoje atende pelo nome de Ernesto Neto", garante Musatti.
A estimativa de preço de uma peça do jovem Ernesto Neto em aço e borracha, de 1994, proveniente da galeria Camargo Vilaça, é a mesma de uma tela de Portinari (Retrato de Maria Bento) pertencente a um colecionador carioca, algo em torno de US$ 18 mil. Buscar coerência num mercado cujas regras mudaram seria exigir muito dos americanos, mas é possível identificar facilmente nomes em ascensão pelos preços fixados pela Christies. Lygia Clark é um deles. Uma de suas telas com tinta industrial sobre madeira dos anos 50 custa quase o mesmo que um tríptico do cinético Jesus Soto, algo em torno de US$ 30 mil (lance inicial). Mira Schendel, que em vida teve pouco êxito comercial, hoje é um nome estratosférico. Desenhos seus estão em leilão por preços iniciais que variam de US$ 4 mil a US$ 10 mil.
A Bienal, segundo Musatti, teve um papel decisivo na difusão da obra dessas duas artistas e de outros nomes hoje conhecidos no mercado americano (Mira ganhará ainda este ano uma retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles). Musatti, dono de uma galeria nos anos 80, lembra que o intercâmbio com críticos estrangeiros também impulsionou as vendas, citando o inglês Guy Brett como responsável pela fama de Hélio Oiticica e Lygia Clark na Europa e Estados Unidos. "O mercado externo, hoje, busca principalmente os artistas que trabalharam ou trabalham com suportes não tradicionais", afirma
justificando a fraca presença da pintura e da escultura em leilões como os da Christies.


