Chove na cultura
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
No Paraná, além das chuvas insistentes dos últimos meses, um outro fato instiga as mentes a buscar explicação para um fenômeno que ficou mais evidente ao apagar das luzes do governo Lerner. Depois das inaugurações e reinaugurações em série de espaços culturais pelo antigo governo, metereologistas e artistas têm sido surpreendidos por umidade e goteiras que inundam teatros, cinemas e museus no Estado. O fenômeno que, por anos a fio, foi considerado problema crônico em construções suntuosas como a Ópera do Arame, em Curitiba, desencadeou uma epidemia que não poupou nem mesmo o NovoMuseu, agora chamado Oscar Niemeyer, em homenagem ao arquiteto que transformou o abandonado edifício Castelo Branco em obra de arte.
O espaço, diga-se de passagem, é uma sinfonia arquitetônica, não resta dúvida de que colocar aquele belíssimo olho na ''paisagem'' retilínea do antigo prédio foi uma idéia genial, uma transformação digna de Midas que confirma Curitiba como cidade de bom gosto em matéria de concepção de espaços públicos. O problema é que o ''olho'' de Niemeyer não foi feito para chorar. Mas nas rampas de acesso ao museu a água da chuva empoça incomodando o público das exposições que tem duas alternativas: pular as poças d'água ou sair com sapatos encharcados. Um vexame que não se justifica numa obra que custou R$ 50 milhões e que também cheira a mofo sinal evidente de umidade.
Em fevereiro, o fenômeno ''chove na cultura'' volta a se repetir no interior do Estado. O Cine-Teatro Ouro Verde, espaço que desperta na população de Londrina imenso carinho - inclusive porque leva a assinatura de Villanova Artigas, outro arquiteto genial - também apresenta goteiras que interrompem apresentações, afugentando os artistas do palco. O teste pegou de surpresa os grupos Neuma e Ars Mensurabilis que sairam às pressas do palco para o saguão do teatro, no último dia 17, para dar continuidade a um concerto interrompido pela chuva . Os grupos de música antiga não haviam programado nenhuma peça úmida e profissionalmente, repetiram a apresentação no último sábado sem água no cenário.
Também ciente do fenômeno ''chovendo na cultura'', o elenco de ''O Velho Malandro'' espetáculo que reabriu o Ouro Verde para o grande público na semana passada , fez duas apresentações nos dias 15 e 16 com o teatro lotado por cerca de 900 espectadores em cada sessão, alguns rezando para que o tempo não virasse. Terminadas as apresentações, o grupo, que não é bobo, programou mais sessões para o T.O.U. (Teatro Obrigatório Universal), espaço simpático que acomoda umas 80 pessoas na platéia, com a vantagem de tudo permanecer seco e seguro até o fim do musical que não tem nada a ver com ''Dançando na Chuva''.
É visível que o Ouro Verde, com a restauração, melhorou sensivelmente em aspectos que a Folha não cansou de denunciar, nos últimos anos, como relegados ao descaso. Os camarins e a iluminação tiveram sua qualidade melhorada, segundo artistas e técnicos. Mas a reforma, que custou R$ 3 milhões aos paranaenses, deixa inativa a finalidade original do prédio. O Ouro Verde, que nasceu como cinema na década de 50, não pode mais exibir filmes. O orçamento dos sábios que trabalharam para o ex-governador não previa a alta do dólar (?) o que acabou inviabilizando a compra de um novo projetor. O velho não se adapta mais às condições exigidas para que o local possa contemplar o cinema e o teatro como foi durante décadas até mesmo porque Londrina é carente de espaços culturais. Assim, o londrinense fica sem cinema no Ouro Verde, mas pode se divertir com as goteiras e um problema de acústica que alguns artistas e pessoas do público têm constatado: depois da reforma, o som ''sobe'' para o balcão no andar superior, transformando rocks e raps em concertos celestiais . O balcão poderá se transformar em espaço disputado pela platéia que não quer sair do teatro cismada com a possibilidade de estar sofrendo de problema auditivo. É preciso registrar que o sistema de ar-condicionado também não funciona perfeitamente.
Outras 12 cidades do interior do Estado que tiveram seus cinemas reformados por conta do alardeado projeto ''Velho Cinema Novo'', também estão esperando pelos projetores que não entraram na conta do antigo governo. Por sinal, cabe a pergunta: quem fez contas tão malfeitas? E por que a população do Paraná amargaria quietinha o prejuízo de uma política que optou por reformas milionárias, a toque de caixa, para mostrar serviço no apagar das luzes de uma gestão terminal? Ah, não dá para engolir essa não!
Em Londrina, observadores detectaram que a placa de reinauguração do Ouro Verde colocada numa parede externa do prédio já sofreu alteração. A exemplo do que fazem os pichadores de placas de trânsito, um engraçadinho com vocação para o vandalismo modificou a inscrição ''Secretaria da Cultura'' apagando algumas letras. Hoje, o que se lê é o slogan do projeto ''Velho Cinema Novo'' com a assinatura da ''Secre... Ria da Cultura''. A placa é da Secretaria de Estado da Cultura.


