CHORO SEM NAFTALINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de abril de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Quando se fala em choro, as referências que surgem quase imediatamente são gravações antigas cheias de chiados e músicos da velha guarda tocando Brasileirinho (Waldir Azevedo). Com quase 200 anos de estrada, o gênero é sinônimo de música instrumental brasileira. E é tão importante para a formação da identidade cultural do País que ganhou até um dia: 23 de abril. Isso mesmo, amanhã é o Dia do Choro. E quem prestar atenção vai perceber que, além de vigoroso, ele está remoçando. Não cheira mais à naftalina. O choro hoje também é tocado por jovens e demonstra uma maleabilidade que o permite flertar com a música de câmara, com o pop e com o jazz, sem perder o sotaque nacional.
Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo... Hoje o choro continua abrigando os mesmos bons compositores, sem desdenhar os novos. A atualidade ganha efervescência em grupos como Água de Moringa, Rabo de Lagartixa, Nó em Pingo DÁgua, Bruno Rian e muitos outros. O gênero frequenta ainda o repertório de quem não é exclusivamente chorão, como os violonistas Guinga, Marco Pereira, Turíbio Santos, o grupo Pagode Jazz Sardinhas Club, o saxofonista Mané Silveira, o contrabaixista Swami Jr., o flautista Teco Cardoso, o sambista Osvaldo Pereira, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti e o violeiro Roberto Corrêa.
O século 21 se apresenta luminoso para o cenário. Além de intérpretes, o choro está fazendo parte do currículo de instrumentistas que se dedicam à música brasileira. Mesmo que vários deles não toquem choro, a maioria passa pelo gênero em busca de embasamento. O que se temia tempos atrás a extinção do estilo virou um pesadelo inimaginável.
Essa reciclagem faz parte da história do choro. Após os primórdios no século 19, com Joaquim Callado, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Patápio Silva, vieram revolucionários como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Na sequência, novidades reapareceram com Radamés Gnatalli e o pessoal do Camerata Carioca com Joel Nascimento e Raphael Rabello. Hoje o gênero vive uma outra fase de evolução.
Basta rodar por algumas cidades, como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Porto Alegre, Curitiba e Londrina para encontrar rodas de choro. Difícil por natureza, o estilo não comporta enrolação. E já não corresponde ao mito de que é realizado apenas no improviso.
Uma antiga comparação pregava o seguinte: enquanto no jazz um solista improvisa, no choro o solista segue a melodia enquanto o acompanhamento improvisa. Hoje a máxima já não é exatamente verdade. Ao mesmo tempo em que o aprimoramento técnico impera, a qualidade das execuções aumenta. O ensaio passou a fazer parte do cotidiano dos chorões.
Para se enturmar com o estilo é aconselhável esquecer o diminutivo, muitas vezes visto como pejorativo. Como o mais antigo gênero nacional vivo, o choro descarta o apelido chorinho porque evoca os clichês de outras épocas.
A contemporaneidade pode ser encontrada em nomes como Maurício Carrilho que montou a primeira gravadora especializada em choro, a Acari Records , Luciana Rabello, Paulinho da Viola sim, ele compõe bons choros , Hamilton de Hollanda, Alê Ferreira, Jaime Vignoli, Maurílio Lopes, Mário SSve, Rodrigo Lessa e muitos outros. Além de instrumentistas, essa turma costuma assumir com desinibição o papel de arranjador.
Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento é sensível, tanto em qualidade quanto quantidade, a divulgação continua escassa. Quem não é do meio praticamente desconhece os nomes contemporâneos. Eles circulam em CDs independentes ou em pequenos selos, a maioria difícil de achar. Nas lojas de discos, o que se encontra são coletâneas voltadas ao passado. O choro dificilmente ganha a mídia.
A música instrumental brasileira tem menos espaço na mídia nacional do que a americana nada contra o jazz e o blues. Quando ganha espaço, recebe um enfoque antigo. É inadmissível essa pretensão em divulgar o que o choro foi. Os melhores instrumentistas de choro estão vivos, ele está melhor representado hoje. A pior das pechas do choro é a de que é música de velho, é importante desatrelar dessa condição de música do passado. O choro é música do presente, comenta Roberto de Souza, bandolinista que vive em Londrina.
Acostumado a frequentar rodas cariocas e a tocar ao lado de Joel Nascimento, Roberto de Souza enfoca o choro como uma música requintada em desenvolvimento. Hoje não existe um solista, mas uma alternância de solistas. É uma tendência feliz porque aparece o grupo todo. Se a própria música erudita caminhou para isso, na popular é uma evolução, completa.
Ainda assim o gênero passa longe das rádios aparece apenas em programas específicos , onde viveu uma explosão na década de 50. Dizem que você mudava de estação e conseguia pegar três rádios tocando Brasileirinho. Por que isso? Havia divulgação, ressalta Roberto.
Para a flautista Rosana Moraes, de 21 anos, o choro tem uma forte ligação com o passado, o que não significa que o estilo está envolto em teias de aranha: Não acredito que seja uma música velha. Nas oficinas que frequenta como instrumentista, Rosana percebe o interesse pelo gênero: Pelo que eu tenho visto em algumas cidades, quem só pensava em jazz agora está se interessando pelo choro.
Chorão desde a década de 50, o violonista Roberto Guerra vê com bons olhos o interesse dos instrumentistas mais jovens. E ressalta: o público continua prestigiando. Vem vindo uma rapaziada nova que está se entusiasmando. As pessoas que vão assistir nossas apresentações ficam encantadas. Roberto comanda, ao lado do bandolinista Frederico Bellinato que acompanhou Garoto o Clube do Choro de Londrina.
Com dez anos, Matheus Garcia consegue uma precisão invejável no violino. Ele também não desafina no repertório. Além dos eruditos, Matheus gosta de Ernesto Nazareth, Radamés Gnatalli e Pixinguinha. E não hesita em participar de rodas de choro, embora seu instrumento não seja habitual no gênero.
A paixão pelo choro ele herdou da mãe, a pianista Luciana Gastaldi Sardinha. Eu gosto muito, acho que liberta e diverte. Vi minha mãe tocando e achei gostoso, afirma. Matheus toca violino há seis anos e pretende continuar incluindo o estilo em seu repertório.
Roberto Guerra, Roberto de Souza, Rosana Moraes e Matheus Garcia são quatro gerações de instrumentistas de choro que às vezes se reúnem para tocar em formações diversas. Os quatro são exemplos de que o choro continua vencendo a linha do tempo e ganhando novos representantes.
O Dia Nacional do Choro bate com o aniversário de nascimento de Pixinguinha e é uma iniciativa do bandolinista Hamilton de Hollanda um dos bons nomes do choro atual encampada pelo senador Artur da Távola. Aprovado em agosto do ano passado pelo Congresso Nacional, a data foi sancionada por Fernando Henrique Cardoso.


