Choro: o gênero musical que está no DNA de Londrina
Desde os anos 50, a cidade reúne regionais do gênero instrumental tipicamente brasileiro que embala a cena cultural
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2025
Desde os anos 50, a cidade reúne regionais do gênero instrumental tipicamente brasileiro que embala a cena cultural

Assim como a bossa nova está na alma do Rio e os sambas de Adoniran Barbosa dão identidade a São Paulo, o choro é um gênero musical que está no DNA de Londrina.
Desde os anos 1950, formam-se por aqui os chamados regionais do choro que, com alguns intervalos no tempo, ainda resistem como marca de uma cidade musical a mostrar, em comparação a outros gêneros do circuito comercial, que a vida presta.
No centro da cidade, nas imediações de um restaurante que adota o choro no cardápio musical das sextas-feiras, consta que a vizinhança dos prédios aprecia e dorme embalada por flautas e cavaquinhos que respeitam não só os horários, como os ouvidos de quem adora a música instrumental que já faz parte da cena cultural de Londrina.
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Para falar da ligação estreita de Londrina com os chorões, os instrumentistas Osório Perez e Rodrigo Poggian gravaram para a Folha de Londrina um podcast da série "Crônicas de Londrina e Outras Cidades", resgatando momentos do choro de ontem e hoje.
Perez é figura conhecida nas rodas da cidade desde que se apaixonou pelo choro e passou a integrar as grupos musicais que hoje circulam pelos bares, restaurantes e espaços públicos. Vestido com roupas de época, é comum encontrá-lo nas apresentações do Clube do Choro não só em Londrina, já que seu violão se harmoniza com públicos de outras cidades brasileiras e até do exterior.
Rodrigo Poggian tem formação erudita, especializou-se em viola e chegou a tocar com a Orquestra Sinfônica de Heliópolis (São Paulo) até se encantar pelo choro e outros gêneros populares que ouvia na infância, já que sua mãe é fã da boa música brasileira.
"O choro tem partitura, o que facilita a vida de um músico erudito que não consegue atender a pedidos do tipo 'toca aí', comuns em qualquer roda de música popular," diz Rodrigo sobre sua preferência.
A partitura é uma espécie de asa para o voo do improviso que tanto ele quanto Perez citam como essencial no choro.
Lembrando frase de Poggian, Osório Perez define: "O improviso é o risco, se não tem risco não tem música." Mas ambos pontuam que, diferentemente do jazz, o improviso no choro não pode sair do tema melódico das partituras.
O DNA DO CHORO
Perguntados sobre o gosto de tocar em rodas de choro, os músicos enfatizam o diálogo de violinos, cavaquinhos, pandeiros e violões. Mas também o clima familiar que se estabelece para aquilo que Perez considera fundamental: "criar beleza!"
Os momentos descontraídos das rodas abertas - como se chamam os grupos onde as pessoas vão chegando e tocando, sem a formalidade das apresentações profissionais - são caracterizados também pela diversão de quem não sabe tocar, mas se sente feliz na roda.
As rodas de choro em Londrina ressoam no tempo e carregam a história da cidade que nasceu para a música e faz dela o combustível para apresentações que se multiplicam.
No DNA do choro da cidade há uma respeitável "velha guarda", aquela que a partir dos anos 1950 semeou e ajudar a plantar a sua "flor musical", as composições delicadas feitas por grandes instrumentistas que deixaram sua marca na história.
Na lista, onde cabem tantos outros, incluem-se antigos chorões como Frederico Belinatto (Cabeção) que tocava bandolim, cavaquinho e violão tenor; Roberto Guerra Neto (violão de seis cordas); Gaúcho (cavaquinho); Juliano de Mari (acordeon), Joaquim Rodrigo, o Albertino (violão de sete cordas), Ditinho (pandeiro), Alberto Barrozo (cavaquinho e bandolim), Pedro Moretto (saxofone e clarinete) e Liberto Resta (violino).
Dessa turma guardam-se memórias também na imprensa. E a Folha de Londrina desempenhou papel importante ao registrar grandes momentos do choro.
O jornalista Edilson Leal, que trabalhou na FOLHA durante décadas, criou na cidade o 1º Encontro Nacional do Choro, em 1977. Leal também foi um dos fundadores do Clube do Choro de Londrina, juntamente com o médico José Luis da Silveira Baldy e outros precursores, em 1976.
A TV Coroados também deu a mão ao choro num programa local chamado "Musical da Saudade", comandado por Chico Olivieri, que ficou no ar de 1964 a 1972. No programa, Frederico Belinatto (o Cabeção) era figura constante com seu regional.
Uma curiosidade no podcast gravado para a FOLHA é a imagem do bandolim de Frederico Belinatto (o Cabeção). Intacta, a relíquia da marca Del Vecchio, foi doada pelo neto do músico a Perez porque ele ficou impressionado com a quantidade de informações que o violonista coleciona sobre seu avô.
Perez também é um pesquisador do choro e trouxe para o podcast, além do bandolim que pertence hoje ao acervo do Clube do Choro, uma pasta de recortes e partituras, incluindo uma música de Antônio Scalassara, "Chorinho Conversa", de 1935, tocada por ele e Rodrigo Poggian no programa.

Trouxe também uma coleção de discos gravados por chorões de Londrina, incluindo o disco "Choros Inesquecíveis" (2002), do Clube do Choro. Raro, o disco tem relançamento previsto para 6 de setembro nas plataformas digitais.
A data prevista para o relançamento, segundo Perez, foi escolhida para homenagear outro músico que também fez história na cidade: o violonista Paulo Zamariano que comemorava seu aniversário em 7 de setembro, com uma festa que começava no café da manhã e ia até de madrugada em sua casa, numa esquina da rua Jorge Casoni. Setembro também será o mês provável para a realização futura de um Festival de Choro, um sonho dos instrumentistas londrinenses.
O CHORO HOJE
Quando se pergunta qual o melhor momento do choro em Londrina, Perez responde sem nenhuma dúvida: "hoje!"
Do Festival Internacional de Música de Londrina, de onde também saíram e saem rodas de choro para fazer a festa na cidade, às rodas semanais que hoje brilham nos bares, restaurantes e espaços públicos, o gênero instrumental tipicamente brasileiro ressoa, enviando o recado da boa música através de gerações.
Além do Clube do Choro, novos regionais prosperam na cidade, tocando nossos ouvidos com as composições clássicas do gênero, além de composições próprias que desafiam todos os improvisos, como "o risco necessário" para movimentar a adrenalina dos instrumentistas.
Perez coordena o Clube do Choro e cita outros músicos que hoje preservam este gênero musical na cidade: Lucas Fiuza (bandolim e cavaquinho); Júlio Erthal, Luiz Potássio e Débora Meira (flauta transversal), Zé do Tenor e Felipe Meira (saxofone), Giovani Faria, o Fininho (cavaquinho), André Coudeiro, Henrique Bresciani, Vivente Hahn, Ronaldo Prascidelli e Cecília Feliciano (pandeiro), Cilas Rocha e Alexandre Arrigo (acordeon), Wagner Collins e Priscila Grossi (violino); André Mattos, José Hugo e Fernando Salles (clarinete); Cícero Cordão (trompete), Rodrigo Poggian (viola); Paulo Turazzi (banjo tenor); Gilberto de Queiroz (sousafone), Ricardo Silva, o Sabiá) (repique e cuíca), Gustavo Konstanski (cavaquinho e pandeiro), João Yamamoto (contrabaixo acústico) e Paganini (bateria).
Camila Taari, Lígia Canônico, Cecília Feliciano e Joaquim André também atuam como cantores.
Vocês pensam que acabou? Não, tem muito mais, na verdade uma lista que daria para cobrir de nomes parte da avenida Dez de Dezembro ou da Leste-Oeste, se a gente colocasse as gerações de ontem e hoje tecendo o choro em Londrina. Exagero? Não, um "improviso" para alimentar a leitura.

RODAS
Quem quiser encontrar os chorões que mantêm a chama viva, pode conferir no instagram @clube.choro.londrina as apresentações semanais pela cidade, ou frequentar espaços como o Sabor & Ar, onde o regional Flor de Café toca aos domingos, o Empório Sumatra, o restaurante Joia, a Vila Casoni e tantos outros locais onde pulsa a música que é a cara do Brasil.
Além de tocar durante o podcast a música "Chorinho Conversa", do compositor londrinense Antônio Scalassara, com uma partitura de 1935, Osório Perez e Rodrigo Poggian toparam um desafio: tocar também na redação da FOLHA para os jornalistas que comemoraram a pausa no trabalho. Desta vez, a escolhida foi "Receita de Samba", de Jacob do Bandolim.
Confira esses momentos no podcast "Crônicas de Londrina e Outras Cidades" no canal da Folha de Londrina no YouTube.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.




