Que rock que nada! Em caso de abandono ou desabrigo sentimental, para se chorar as pitangas bem choradas é preciso músicas que falem de amor ou desamor. E é principalmente nas baladas românticas que brilha todo o talento da cantora e compositora Angela Rô Rô. Até Maria Bethânia se rendeu às suas canções. Se é quase uma máxima que nada melhor que amar ou sentir-se desamado ao som da intérprete baiana, obviamente não poderiam faltar canções da polêmica e maravilhosa Rô Rô. ‘‘Meu amor, se eu choro pelas dores do mundo por que não iria chorar pelas minhas próprias dores? Não amar é um vazio. Quem não ama deve ser uma merda’’, disse Angela Rô Rô, em entrevista por telefone, à Folha 2, numa de suas geniais tiradas de irreverência.
A artista tem uma pequena discografia – apenas nove álbuns solos. Mas já marcou presença na MPB através de canções, algumas clássicas como é o caso de ‘‘Fogueira’’. São dela também preciosidades como ‘‘Mares da Espanha’’, ‘‘Tola foi Voc꒒, ‘‘A Vida é Mesmo Assim’’, ‘‘Fraca e Abusada’’, ‘‘Gota de Sangue’’ entre outras canções que tocam no verso e reverso do amor. Até em músicas alheias, Rô Rô consegue imprimir visceralidade – alguém já deitou ouvidos e almas nas releituras de ‘‘Ne Me Quitte Pas’’ ou mesmo ‘‘Você Abusou (Opus 2)’’?
Rô Rô dá uma longa volta – muito bem dada por sinal – antes de começar a ser objetiva sobre o que entende amor e o desamor. Admite que já sofreu – aliás algumas de suas canções atestam –, chorou, esperneou quando o amor se acabou. ‘‘O amor verdadeiro é pouco posto em prática’’, diz. Se amou, também já se viu obrigada a abrir o jogo a alguém que se derretia em paixão por ela. ‘‘Com o Glauber Rocha e o Sérgio Bandeyra (parceiro musical) eu fui sincera, porque tínhamos afinidades. Quanto às demais pessoas eu me distanciava mas deixava bem claro que naquele momento não poderia dar nada de bom de mim. Nesse ponto sempre respeitei os outros’’, diz com sinceridade.
Agora, quanto àquelas paixões tórridas que renderam alguns clássicos, ela evoca também a sinceridade acompanhada do sarcasmo. ‘‘Hoje eu recapitulo algumas canções que fiz falando de dor. Algumas até avacalho’’, afirma. O melhor exemplo é ‘‘Fogueira’’ (83), um de seus maiores sucessos. ‘‘Empenei o violão de tanto chorar ao compô-la e a musa, digamos assim, me interrompia com telefonemas. Ela dizia: ‘acaba logo essa desgraça que eu quero ir à praia’. Mas eu tinha que acabar o ritual da desgraceira para a Bethânia gravar, transformar em obra-prima e eu ganhar dinheiro’’, relembra entre sonoras gargalhadas e fartos palavrões. Folclórica, sim, mas Rô Rô no fundo, no fundo é uma romântica incurável. (A.M.J.)

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