Chorando em boa companhia
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Foi no centro de Londrina. Entre a confusão de luzes e edifícios havia um foco secreto de resistência. O cheiro de carne assada circulava estimulante pelo ambiente e a conversa aos poucos revelou o motivo da reunião de cúpula: a música. Não essas com letras grudentas e mais preocupadas com números que com melodias.
Talvez por isso os holofotes se ausentaram. Também não havia tietes em busca de autógrafos. Nem samplers, mesas de som, exigências de camarins, seguranças, limusines, técnicos, telões e roadies. Não houve parafernália nem exageros.
Entre um gole e outro circularam piadas, problemas com alunos, histórias de shows, lembranças engraçadas e muita informação:
- Que corda você usa?
- Esse cavaquinho parece mais leve.
- Tem um japonês em São Paulo que faz ótimos violões.
- Aí o cara pegou e jogou o café dentro do telefone!
- E esse violão tenor, é raro, hein?
- Tem gente que ainda hoje acha que músico é vagabundo!
- É um presente do Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto.
Foi esse o clima do encontro entre os chorões londrinenses e os professores da Oficina de Choro do 19º Festival de Música de Londrina.
Num ambiente em que o número de instrumentistas quase superava o de ouvintes, o choro se instalou em sua forma mais original: a roda. Alguns foram se adiantando, puxando serestas e canções. A baixaria nas cordas mais graves do violão foi tomando forma, um cavaquinho apareceu para acompanhar.
A iniciativa atraiu outros adeptos e aos poucos, a roda estava montada com três violões de sete cordas, um de seis, um cavaquinho, um bandolim, um pandeiro, e três músicos que se alternavam em instrumentos de cordas. Integrar tudo isso demorou umas duas músicas. Aí, num ritmo mais lento, as formações foram variando, alguns não tocavam em determinados momentos para não carregar demais o som.
Depois dessa transição, a coisa se instaurou. Os improvisos apareceram, os solistas mostraram personalidade, os pandeiristas acompanhavam a intensidade da execução. Quem não tocava acompanhou em silêncio. Pelo repertório transitaram Pixinguinha, Jacob do Bandolim e outros. Teve até música que ninguém lembrava o autor. Com a fluência dos choros, as expressões mudaram. Olhos se fechavam, sorrisos apareciam. Às vezes, as frontes se contraíam em passagens de sonoridades mais raras.
Com a descoberta de que o anfitrião era também aniversariante, Joel Nascimento resolveu improvisar uma melodia ao bandolim, exigindo o acompanhamento de Luiz Otávio Braga e Josimar Carneiro nos violões de sete cordas. Harmonização e arranjos também foram feitos na hora.
A grande indústria fonográfica finge não conhecer essa sutileza. Insiste em martelar seus sucessos como um mastodonte gigantesco e acéfalo, hipnotizado pela caixa registradora. Visto do alto, no meio dos prédios, aquele encontro talvez se tornasse uma luz espremida pelo concreto. Um consistente ponto de resistência de um gênero que há mais de um século é cultivado com prazer.Professores do 19º Festival de Londrina se reúnem com músicos locais para conversar, trocar informações. Tudo em nome do choro
Ranulfo PedreiroJaime Vignoli, Joel Nascimento, Josimar Carneiro, Oscar Pellon e Luiz Otávio Braga: encontro de bambasRanulfo PedreiroAlém de improvisar no violão de sete cordas, Seo Nelson puxou algumas cançõesRanulfo PedreiroRoberto Guerra Netto improvisa no violão de seis cordasRanulfo PedreiroJoel Nascimento e Roberto Souza: confraternização no choroRanulfo PedreiroFrederico Cabeção Bellinato, um dos companheiros de Garoto





